Em duas salas de um prédio no centro de Piracicaba (SP), o Templo de Lúcifer e Reino de Clauneck funciona de portas fechadas há 10 anos, realizando práticas espirituais privadas que incluem o uso de sangue dos próprios sacerdotes em rituais. O espaço ganhou notoriedade após um vídeo de sua fachada viralizar no TikTok, alcançando 120 mil visualizações, o que atraiu curiosidade, mas também uma rotina diária de ameaças e ataques de ódio contra os fundadores.
Administrado por Juliana Santana (conhecida como Bruxa Jully) e Joel Gomes, o local não é aberto ao público para cultos coletivos. Os atendimentos são remotos e focados em orientação espiritual para consulentes. O luciferianismo, segundo os líderes, não é considerado uma religião, mas uma filosofia de vida sem dogmas ou livros sagrados, onde ‘Lúcifer’ significa ‘portador da luz’. Já Clauneck, a quem o templo também é dedicado, é descrito por Juliana como uma entidade da corte de Lúcifer responsável pela prosperidade e riqueza.
Os rituais realizados pelos líderes buscam auxílio espiritual e financeiro. Juliana faz questão de esclarecer estigmas associados ao grupo, afirmando que não há sacrifício de animais. As práticas envolvem apenas o uso do sangue dos próprios sacerdotes, coletado da veia. “O sangue representa a vida e é uma forma de mostrarmos ao nosso Deus o quanto o adoramos”, explica Juliana.
Segundo Brenda Maribel Carranza Dávila, doutora em antropologia e sociologia da religião pela Unicamp, o luciferianismo organizado ganhou força nos anos 1960 como um movimento contracultural. “Satan ou o diabo não aparece como uma divindade cultuada, mas como uma linguagem simbólica de oposição à autoridade religiosa”, analisa a antropóloga. A especialista também pontua que a busca pelo dinheiro e prosperidade é um mecanismo comum a quase todos os sistemas religiosos e filosóficos.
Intolerância e isolamento
O uso de símbolos transgressores, no entanto, gera o que a antropóloga chama de pânico moral na sociedade. Esse fenômeno explica a decisão dos fundadores de manterem o local em sigilo e sem acesso público. “Quanto mais agredidos, mais eles se fecham. E quanto mais perseguidos, pode ser que tenham mais seguidores”, explica a antropóloga.
Juliana relata que as ameaças são diárias e incluem mensagens de ódio e garrafas atiradas contra o prédio. “Ataques são todos os dias. A gente abre o nosso celular do templo e tem ali consulentes pedindo ajuda e pelo menos um, atacando”, conta Juliana. Juliana e Joel informaram que mantêm uma equipe de advogados para lidar com as agressões.
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