A insegurança no campo tem mudado a rotina de produtores rurais do Norte do Espírito Santo, principalmente durante o período de colheita de culturas como café e pimenta-do-reino. Com receio de furtos e roubos, agricultores passaram a adotar medidas extras de proteção e até a alterar a forma de armazenamento da produção, em um cenário que reflete o avanço da criminalidade nas áreas rurais do estado.
Dados da Secretaria da Segurança Pública (Sesp) mostram que, somente no ano passado, foram registrados 44 casos de furtos e roubos na região. Em 2026, já são 16 ocorrências, sendo 14 delas em áreas rurais. Os números indicam uma tendência de crescimento, com impactos diretos na economia local e na confiança dos trabalhadores do campo.
Em São Mateus, o produtor de pimenta-do-reino Neomar Pastorini decidiu não armazenar mais a produção de clientes após ter a propriedade invadida e equipamentos furtados. “Conversei com os produtores e combinei o seguinte: tudo que eu seco, ainda à tarde ou no outro dia, eles precisam buscar. Eu presto o serviço, mas não fico mais responsável por armazenar nada para ninguém. Não tem como trabalhar na nossa região de outro jeito”, afirmou. O produtor lembrou que a realidade no campo era diferente há alguns anos: “Antes, se você deixasse uma saca de café no meio da lavoura, ela brotava dentro do saco. Hoje, em 24 horas eles te roubam”, comparou.
Segundo relatos de produtores, os criminosos têm como alvo produtos de alto valor comercial, como pimenta-do-reino, café e até gado. Diante desse cenário, muitos agricultores passaram a investir em câmeras de monitoramento, cães de guarda e maior controle de acesso às propriedades. A situação reflete um problema mais amplo de segurança pública no interior do estado, que afeta não apenas a produção, mas também a qualidade de vida das comunidades rurais.
Medidas para reduzir riscos
Ciente da preocupação e medo dos produtores, o Conselho de Segurança Pública (Consel) da região orienta a adoção de cuidados na contratação de trabalhadores temporários durante a colheita. “É importante identificar o trabalhador, conferir documentos e buscar referências, consultar o histórico criminal. O proprietário precisa saber quem está entrando na propriedade”, orientou o presidente do ConseI, Edval Sant’Ana. Outra recomendação é evitar pagamentos em dinheiro vivo, não realizar o transporte de cargas durante a noite e manter máquinas, implementos e equipamentos guardados em locais fechados e protegidos.
O cenário de insegurança no campo não é isolado. Em todo o Brasil, áreas rurais têm registrado aumento de crimes patrimoniais, impulsionado pelo alto valor de commodities agrícolas e pela dificuldade de policiamento em regiões afastadas. No Espírito Santo, a situação se agrava com a falta de efetivo policial e a extensão territorial das propriedades, o que exige ações coordenadas entre produtores, conselhos de segurança e forças policiais.
A Polícia Militar reforçou o patrulhamento rural na região, com rondas mais frequentes e ações de inteligência para coibir os crimes. No entanto, produtores relatam que a resposta ainda é insuficiente para garantir a segurança necessária durante a safra. A expectativa é que, com a ampliação das medidas de prevenção e o fortalecimento das redes de vizinhança, os índices de criminalidade possam ser reduzidos nos próximos meses.
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