O mês de julho, marcado pelas férias escolares, expõe um cenário de maior cansaço e sobrecarga entre as mulheres, que acumulam mais carga mental, ansiedade e menos tempo de descanso durante o período, segundo aponta estudo divulgado pela pesquisadora Ana Clara Santos, do Núcleo de Estudos de Gênero da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A pesquisa, que ouviu 1.200 mulheres em cinco capitais brasileiras, revela que a interrupção da rotina escolar intensifica desigualdades históricas no cuidado com crianças, impactando diretamente a saúde física e emocional feminina.

De acordo com o levantamento, 78% das entrevistadas relataram aumento significativo na carga de tarefas domésticas e na organização da logística familiar durante julho, enquanto apenas 22% dos parceiros ou cônjuges dividiram essas responsabilidades de forma equitativa. A pesquisadora Ana Clara Santos destaca que o fenômeno não é sazonal, mas sim um reflexo de estruturas sociais que naturalizam a sobrecarga feminina. “Julho é um termômetro de um problema crônico: as mulheres são as principais responsáveis pelo cuidado, e isso se agrava quando a escola, que funciona como um suporte, fecha as portas”, afirmou a especialista.

Impactos na saúde mental e financeira

O estudo também aponta que 65% das mulheres relataram sintomas de ansiedade elevados durante o período, e 43% afirmaram ter reduzido o tempo de sono para dar conta das demandas. Além disso, 37% das entrevistadas disseram ter recorrido a arranjos informais, como pedir ajuda a parentes ou vizinhos, para conseguir trabalhar ou descansar. A pesquisa ainda revela que 29% das mulheres precisaram reduzir a jornada de trabalho formal ou abrir mão de oportunidades profissionais, gerando perda média de renda de R$ 1.200 no mês.

O levantamento foi realizado entre os dias 10 e 20 de julho de 2025, com mulheres de 25 a 45 anos, de classes sociais variadas, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre. A margem de erro é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos. O estudo completo será publicado na Revista Brasileira de Estudos de Gênero, em setembro.

Panorama político e social

O debate sobre a sobrecarga feminina ganha relevância em um momento em que o governo federal discute a ampliação do programa de creches em tempo integral e a criação de um auxílio para cuidadores informais. A pesquisa de Ana Clara Santos reforça a necessidade de políticas públicas que considerem o impacto das férias escolares na vida das mulheres, especialmente as de baixa renda, que são as mais afetadas. “Sem uma rede de apoio robusta, as mulheres continuarão arcando sozinhas com o custo do cuidado, o que aprofunda desigualdades de gênero e econômicas”, concluiu a pesquisadora.

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