O plano do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de criar um conselho de relações exteriores, anunciado como uma das prioridades da política externa brasileira, foi frustrado por atrasos burocráticos e pelo calendário eleitoral de 2024. A iniciativa, que visava ampliar a participação da sociedade civil e de especialistas na formulação da diplomacia nacional, não avançou como esperado, gerando críticas de setores que defendem maior transparência e diversidade de vozes nas decisões internacionais do país.
De acordo com fontes do Itamaraty e do Palácio do Planalto, o projeto de criação do conselho enfrentou entraves administrativos desde o início de 2023, quando foi proposto. A complexidade na definição de sua composição, atribuições e mecanismos de funcionamento, aliada à necessidade de aprovação legislativa, consumiu tempo que, somado ao período eleitoral de 2024, inviabilizou sua implementação no curto prazo. O governo agora avalia que a medida só poderá ser retomada após as eleições municipais, previstas para outubro, o que pode atrasar ainda mais o cronograma.
O conselho de relações exteriores era visto como uma ferramenta para fortalecer a participação de representantes de movimentos sociais, acadêmicos, empresários e entidades da sociedade civil na definição de temas como comércio internacional, direitos humanos, meio ambiente e integração regional. A ideia era que o órgão funcionasse como um espaço de diálogo entre o governo e a sociedade, ampliando a legitimidade das decisões diplomáticas. No entanto, a falta de avanço concreto gerou frustração entre aliados do governo e organizações que acompanham a política externa.
O cenário político também contribuiu para o impasse. Com as eleições municipais se aproximando, o governo Lula concentrou esforços em pautas domésticas, como a reforma tributária e o combate à inflação, deixando a criação do conselho em segundo plano. Além disso, a oposição no Congresso Nacional, liderada por partidos de centro-direita e direita, sinalizou resistência à proposta, argumentando que o conselho poderia burocratizar ainda mais a política externa e interferir em áreas de competência exclusiva do Itamaraty. Essa resistência política, combinada com a falta de consenso interno no governo, dificultou a tramitação da medida.
Especialistas em relações internacionais ouvidos pela reportagem destacam que o atraso na criação do conselho representa uma oportunidade perdida para o Brasil, especialmente em um momento de crescente complexidade geopolítica. A guerra na Ucrânia, as tensões entre Estados Unidos e China, e as mudanças climáticas exigem uma diplomacia mais ágil e inclusiva, capaz de articular diferentes setores da sociedade. Para o professor de ciência política da Universidade de Brasília (UnB), Carlos Alberto Pereira, a ausência do conselho limita a capacidade do Brasil de inovar em sua política externa. “Sem um espaço institucionalizado de diálogo, o governo perde a chance de incorporar visões diversas e de construir consensos mais amplos sobre temas estratégicos”, afirmou.
Enquanto isso, o Itamaraty mantém a rotina de consultas informais a especialistas e representantes da sociedade civil, mas sem a formalidade e o alcance que o conselho proporcionaria. A expectativa é que, após as eleições de outubro, o governo retome o projeto com força total, mas analistas alertam que o tempo perdido pode comprometer a implementação de políticas de longo prazo. O Ministério das Relações Exteriores, em nota, informou que “o governo continua comprometido com a criação do conselho e que os estudos técnicos estão em andamento”, mas não apresentou um novo prazo para a conclusão do processo.
O episódio reflete um padrão mais amplo de dificuldades enfrentadas pelo governo Lula em implementar reformas estruturais, especialmente aquelas que exigem articulação política e aprovação legislativa. A criação do conselho de relações exteriores, que poderia ser um marco de transparência e participação na diplomacia brasileira, agora depende de um alinhamento de agendas que, por enquanto, parece distante. Para os defensores da iniciativa, o desafio é transformar a frustração em aprendizado e garantir que, quando retomado, o projeto seja robusto o suficiente para resistir aos obstáculos políticos e burocráticos.
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