Morte de criança de 3 anos em Viamão: missionário preso aparecia em vídeos religiosos pregando ‘tudo por Deus’

O missionário Dandre Jermaine Grayson, de 33 anos, foi preso na última segunda-feira, 26 de julho, sob suspeita de envolvimento na morte de seu próprio filho, uma criança de apenas 3 anos, em Viamão, região metropolitana de Porto Alegre. As investigações apontam que o menino teria sido vítima de violência doméstica, e o pai, que já havia sido visto em vídeos cantando na igreja com a frase ‘tudo por Deus’, agora enfrenta acusações de homicídio qualificado. O caso, que chocou a comunidade local, levanta questões sobre a aparente contradição entre a imagem pública de fé e a realidade de violência no ambiente familiar.

De acordo com a Polícia Civil do Rio Grande do Sul, o crime ocorreu na residência da família, no bairro Parque dos Pinheiros. A criança foi encontrada com múltiplas lesões corporais, incluindo traumatismo craniano, e não resistiu aos ferimentos. O Instituto Médico Legal (IML) de Porto Alegre confirmou que a causa da morte foi violência física, e a polícia já descartou a hipótese de acidente. Dandre Jermaine Grayson foi preso em flagrante e, após audiência de custódia, teve a prisão preventiva decretada pela Justiça do Rio Grande do Sul.

Vídeos religiosos e a imagem pública do acusado

Imagens obtidas pela reportagem mostram Dandre Jermaine Grayson participando ativamente de cultos em uma igreja evangélica de Viamão, onde era conhecido como missionário. Em um dos vídeos, ele aparece cantando e pregando, repetindo a frase ‘tudo por Deus’ enquanto liderava os fiéis. A igreja, que não teve o nome divulgado, emitiu uma nota de pesar pela morte da criança e afirmou estar cooperando com as investigações. ‘Estamos profundamente entristecidos e oramos pela família. Acreditamos que a justiça será feita’, diz o comunicado. No entanto, a comunidade religiosa local está dividida, com alguns membros expressando choque e outros defendendo a presunção de inocência.

O caso ganhou repercussão nacional e reacendeu o debate sobre a violência contra crianças no Brasil. Dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos indicam que, em 2025, foram registrados mais de 35 mil casos de violência física contra crianças e adolescentes no país, sendo que a maioria ocorre dentro de casa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o Brasil como um dos países com maior índice de homicídios infantis na América Latina, e especialistas apontam que a fé religiosa não é um fator de proteção contra a violência doméstica. ‘A imagem de religiosidade pode mascarar situações de abuso, e é preciso que a sociedade esteja atenta a sinais de sofrimento nas crianças’, afirma a psicóloga Maria Helena Pereira, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Panorama político e social

O caso de Viamão ocorre em um contexto de crescentes discussões sobre políticas de proteção à infância no Brasil. Em 2026, o governo federal lançou o programa Criança Protegida, que prevê a ampliação de conselhos tutelares e a capacitação de profissionais da saúde e educação para identificar sinais de violência. No entanto, críticos apontam que a implementação é lenta e que faltam recursos para o atendimento de vítimas. A Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, no Congresso Nacional, tem pressionado por um endurecimento das penas para crimes contra menores, mas a proposta enfrenta resistência de setores que defendem a redução da maioridade penal como solução.

Enquanto isso, a comunidade de Viamão se mobiliza para prestar homenagens à criança, com uma vigília marcada para esta sexta-feira, 30 de julho, na praça central da cidade. A Prefeitura de Viamão informou que está oferecendo apoio psicológico à família e que acompanha o caso de perto. O Conselho Tutelar local também abriu um procedimento para investigar se houve falhas na rede de proteção à criança. ‘É uma tragédia que nos obriga a refletir sobre como estamos cuidando de nossas crianças’, declarou o prefeito Carlos Alberto Santos, em nota oficial.

A defesa de Dandre Jermaine Grayson, por meio de seu advogado, Ricardo Oliveira, afirmou que o missionário nega as acusações e que apresentará provas de sua inocência. ‘Ele é um homem de fé, dedicado à família e à igreja. Vamos demonstrar que não houve crime’, disse o advogado. No entanto, a polícia continua as investigações e busca ouvir testemunhas, incluindo vizinhos e parentes, para esclarecer os detalhes do ocorrido. O caso segue sob sigilo judicial, e a próxima audiência está prevista para agosto.

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