A Polícia Civil abriu um inquérito para investigar novas denúncias contra a cantora gospel Izabela Cristy, condenada por estelionato e pirâmide financeira. Segundo o advogado Ivan Nunes, que atua no caso desde 2021, desde o ano passado o escritório dele entrou com cerca de 40 ações na Justiça para tentar reaver valores investidos por vítimas, que somam R$ 1 milhão. “Pleiteamos nessas ações o retorno, a devolução do valor pago em dobro, por se tratar de um golpe”, disse o advogado.
A auxiliar administrativa Keila Maciel Melo, moradora de São Paulo, conheceu Izabela Cristy há cinco anos. Atraída por uma promessa de rentabilidade de até 200% para custear um tratamento de saúde para o filho, ela entregou quase R$ 4 mil para a cantora fazer investimentos e nunca teve retorno. Depois de anos no prejuízo, ela foi novamente procurada por Izabela em 2026 e deu mais um voto de confiança, na esperança de receber todo o valor devido, R$ 40 mil. Mas, para isso, foi convencida a repassar mais R$ 3 mil. “Ela falou assim: ‘Eu estou te dando a minha palavra, pode confiar em mim. Eu não estou te dando golpe, eu não sou caloteira’. E quando chegou o dia [de receber], eu mandava, mandava mensagem e ela não me respondeu mais”, contou. Izabela Cristy negou as acusações. Ela disse à TV Globo que atualmente mora em Dubai, onde tem empresas.
Histórico de golpes e condenações
Izabela Cristi Gomes Barros e o então marido, David Robson de Barros, foram presos em maio de 2022 no apartamento onde moravam, em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Em maio de 2024, os dois foram condenados por estelionato em um esquema de pirâmide financeira. De acordo com as investigações, eles usavam a religião para ganhar a confiança das pessoas, prometiam lucros superiores a 100% e fizeram mais de 300 vítimas. Izabela foi sentenciada a nove anos de prisão domiciliar, por ser mãe de uma criança menor de 12 anos. À época, a Justiça ainda fixou indenizações de R$ 205 mil por danos materiais e R$ 7,5 milhões por danos morais coletivos. No entanto, em 2025, a cantora recebeu indulto natalino, um benefício concedido anualmente pela Presidência da República. Com isso, a pena dela foi perdoada. Já David está em liberdade desde setembro de 2025, quando recebeu um alvará de soltura concedido pela Justiça, conforme a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).
Segundo o advogado criminalista Felipe Henrique, o histórico da cantora pode ser considerado numa eventual nova condenação. “O indulto extingue os efeitos primários da pena, qual seja, o cumprimento da pena, mas ele não extingue o efeito de reincidência, né? Quando da dosimetria da pena, se houve”, explicou. O caso ganha relevância em meio a um panorama de crescente judicialização de esquemas financeiros que utilizam a fé como isca, como já visto em outras investigações de pirâmides religiosas no país. A abertura do novo inquérito pela Polícia Civil reforça a necessidade de monitoramento de condenados que recebem benefícios legais, como o indulto, e que voltam a ser alvo de denúncias, evidenciando lacunas no sistema de proteção ao consumidor e na fiscalização de promessas de investimento.
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