Intolerância à lactose não é a única causa de desconforto com leite, alertam especialistas

Nem todo desconforto após consumir leite ou derivados é sinal de intolerância à lactose, alertam especialistas. De acordo com a reportagem do portal TNH1, médicos e nutricionistas destacam que sintomas como gases, inchaço abdominal e diarreia podem ter origens diversas, incluindo alergia à proteína do leite de vaca, síndrome do intestino irritável ou até mesmo má digestão temporária. A confusão entre essas condições leva muitas pessoas a eliminarem laticínios da dieta sem necessidade, o que pode resultar em deficiências nutricionais, especialmente de cálcio e vitamina D.

O diagnóstico correto exige exames específicos, como o teste de hidrogênio expirado para intolerância à lactose, que mede a capacidade do organismo de digerir o açúcar do leite. Já a alergia à proteína do leite é identificada por meio de testes alérgicos e histórico clínico. A síndrome do intestino irritável, por sua vez, é diagnosticada com base em critérios clínicos e exclusão de outras doenças. Dr. Carlos Mendes, gastroenterologista ouvido pela reportagem, explica que “muitos pacientes chegam ao consultório com autodiagnóstico de intolerância à lactose, mas após investigação, descobrem que o problema é outra condição, como a síndrome do intestino irritável, que responde a estresse e dieta, não apenas à lactose”.

Impactos na saúde pública e na indústria

A confusão entre intolerância à lactose e outras condições tem implicações econômicas e de saúde pública. Segundo a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), cerca de 70% da população mundial tem algum grau de intolerância à lactose, mas no Brasil, a prevalência é menor, variando entre 30% e 50% conforme a etnia. Já a alergia à proteína do leite atinge cerca de 2% a 3% das crianças e 0,5% dos adultos. A eliminação desnecessária de laticínios pode levar a déficits de cálcio, aumentando o risco de osteoporose, especialmente em mulheres idosas. A indústria de laticínios, que movimenta bilhões de reais anualmente, também sente o impacto, com o crescimento do mercado de produtos “zero lactose” — que cresceu 25% em 2023, segundo a Associação Brasileira de Laticínios (ABLV).

O Ministério da Saúde recomenda que pessoas com desconforto após consumir leite procurem um médico para avaliação individualizada, evitando dietas restritivas sem orientação profissional. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também destaca a importância do leite como fonte de nutrientes essenciais, especialmente em populações vulneráveis. No Brasil, o consumo per capita de leite é de cerca de 170 litros por ano, abaixo da média recomendada de 200 litros, e a eliminação indevida do produto pode agravar esse quadro.

Panorama político e econômico

A discussão sobre o consumo de leite ganha contornos políticos em um momento em que o governo federal debate políticas de segurança alimentar e incentivo à agricultura familiar. O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) incluem laticínios como itens prioritários, beneficiando pequenos produtores. Em 2023, o governo destinou R$ 500 milhões para a compra de leite de agricultores familiares, mas a queda no consumo devido a diagnósticos equivocados pode reduzir a demanda. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) alerta que a desinformação sobre intolerância à lactose prejudica a cadeia produtiva, que emprega mais de 1 milhão de pessoas. Parlamentares da bancada ruralista, como o deputado Pedro Lupion (PP-PR), defendem campanhas de esclarecimento sobre os benefícios do leite, enquanto setores da saúde pública pedem mais investimento em diagnóstico diferencial nos postos de saúde.

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