O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), divulgou neste sábado (11) uma nota oficial em que sai em defesa dos servidores da Casa e critica a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, que bloqueou R$ 119 milhões do presidente do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, sob suspeita de desvio de emendas parlamentares. A medida judicial reacende o debate sobre os limites da atuação do Judiciário em questões orçamentárias do Legislativo.
Na nota, Motta manifestou “inconformismo diante da indevida intervenção judicial no mérito de atividade típica do Parlamento”. O presidente da Câmara argumentou que a decisão “não identifica desvio, abuso ou aplicação irregular de verbas públicas”, limitando-se a “inferições e a tentar criminalizar a atividade política”. Para ele, o bloqueio torna-se “inaceitável”, uma vez que a alocação das emendas estaria “em plena conformidade com a moldura normativa vigente e com os compromissos institucionais firmados entre o Executivo e o Legislativo perante a própria Corte Constitucional”.
Defesa dos servidores e funcionamento administrativo
O presidente da Câmara também registrou “confiança no trabalho de seus servidores”. Na nota, ele explicou que a autorização dada pelos parlamentares para que as equipes técnicas operacionalizem as indicações “segundo orientação da direção partidária insere-se na normalidade do funcionamento administrativo do mandato e não traduz qualquer irregularidade”. A declaração ocorre em meio a investigações que miram o uso de emendas por partidos, especialmente o PL, maior bancada da Casa.
A decisão de Flávio Dino, que atendeu a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), determinou o bloqueio de valores destinados a emendas de comissão e de relator, sob a justificativa de que haveria indícios de desvio de finalidade e falta de transparência. O montante de R$ 119 milhões, equivalente a cerca de 0,5% do orçamento de emendas de 2025, foi retido até que o PL apresente comprovação da regular aplicação dos recursos.
Panorama político: tensão entre os Poderes
O episódio insere-se em um contexto de crescente tensão entre o Legislativo e o Judiciário, especialmente após o STF ter imposto regras mais rígidas para a execução de emendas parlamentares, como a exigência de rastreabilidade e transparência. Nos últimos meses, o Congresso aprovou leis para regulamentar o tema, mas ministros como Flávio Dino e Luís Roberto Barroso têm mantido decisões que suspendem repasses sob suspeita de irregularidades. A situação expõe um embate institucional sobre quem detém a última palavra na alocação de recursos públicos: o Parlamento, que aprova o orçamento, ou o Judiciário, que fiscaliza sua execução.
Enquanto Hugo Motta defende a autonomia da Câmara e critica o que chama de “intervenção judicial”, partidos de oposição e entidades de controle social veem na decisão de Dino um avanço no combate ao clientelismo e à falta de transparência no uso de emendas. O caso de Valdemar Costa Neto, figura central do centrão e aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, adiciona ainda mais peso político ao imbróglio, que pode influenciar as negociações em torno da reforma ministerial e da sucessão na Câmara em 2027.
A nota de Motta conclui reafirmando que a Câmara “continuará a conduzir suas atividades com transparência, respeito à ordem jurídica e plena independência do Poder Legislativo”. O desfecho do caso, no entanto, dependerá de novos recursos e de uma eventual decisão do plenário do STF, que pode pacificar ou aprofundar o conflito entre os Poderes.
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