Um narrador esportivo foi vítima de racismo e ameaça de morte ao ser expulso de uma corrida de aplicativo no Distrito Federal, na última segunda-feira (26). O motorista, após iniciar o trajeto, teria dito que não transportava “preto e favelado” e ainda proferiu ameaças graves contra o jornalista. O caso, que já é investigado pela Polícia Civil do DF, expõe mais um episódio de discriminação racial no setor de transporte privado, que atinge não apenas profissionais da comunicação, mas milhares de usuários negros em todo o país.
De acordo com o relato do jornalista, a corrida foi solicitada normalmente por meio de uma plataforma de transporte. Poucos minutos após o início do trajeto, o condutor teria iniciado uma discussão e, sem motivo aparente, ordenou que o passageiro descesse do veículo. Ao questionar o motivo, o jornalista ouviu insultos racistas e foi ameaçado de morte. “Ele disse que não levava preto e favelado no carro dele e que, se eu não saísse, ele ia me matar”, afirmou a vítima em depoimento à polícia.
Investigação e medidas legais
A Polícia Civil do Distrito Federal abriu inquérito para apurar o crime de racismo, que é inafiançável e imprescritível no Brasil. O delegado responsável pelo caso, Carlos Henrique, informou que as autoridades já estão colhendo imagens de câmeras de segurança e depoimentos de testemunhas para identificar o motorista. “Vamos usar todos os recursos disponíveis para responsabilizar o autor, que pode pegar de 2 a 5 anos de reclusão, além de multa”, declarou o delegado.
A plataforma de transporte, que não teve o nome divulgado, afirmou em nota que repudia veementemente qualquer ato de discriminação e que está colaborando com as investigações. A empresa informou ainda que o motorista foi desativado temporariamente do aplicativo até a conclusão do inquérito.
Panorama político e social
O caso reacende o debate sobre o racismo estrutural no Brasil, especialmente em serviços privados que deveriam ser acessíveis a todos. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que pessoas negras são as principais vítimas de violência e discriminação no transporte público e privado no país. Organizações de direitos humanos, como a Educafro e o Movimento Negro Unificado, já se manifestaram cobrando punição exemplar e políticas mais rígidas contra a discriminação racial nas plataformas digitais.
Parlamentares da Câmara Legislativa do Distrito Federal também repercutiram o caso. O deputado distrital Fábio Félix (PSOL) protocolou um requerimento solicitando audiência pública para discutir a implementação de protocolos antirracistas em aplicativos de transporte. “Não podemos tolerar que o racismo seja naturalizado. É preciso que as empresas assumam a responsabilidade de fiscalizar e educar seus motoristas”, afirmou o parlamentar.
O jornalista, que preferiu não ter o nome divulgado por medo de represálias, disse que vai acompanhar de perto as investigações e espera que o caso sirva de exemplo para coibir novas ocorrências. “Não é só comigo. Isso acontece todos os dias com milhares de pessoas negras. A diferença é que eu tenho voz para denunciar”, desabafou.
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