Demência avança na América Latina enquanto recua nos países ricos, revela estudo de duas décadas

Enquanto Estados Unidos e boa parte da Europa registram uma queda lenta nos casos de demência nas últimas décadas, parte da América Latina caminha na direção oposta. Um estudo publicado na segunda-feira (13) na JAMA Neurology, uma das revistas científicas mais respeitadas da neurologia mundial, encontrou um aumento expressivo da doença em cinco pontos da região — e trouxe a primeira evidência direta, obtida de porta em porta, de que os avanços conquistados nos países ricos não estão chegando a todos.

Ao longo de 20 anos, a prevalência de demência — a parcela de idosos que convivem com a doença — subiu de 10,6% para 16,9% no conjunto dos locais analisados, o equivalente a passar de um em cada dez para quase um em cada seis. O crescimento foi puxado por três países: México (de 9,6% para 14,5%), Peru (de 7,6% para 11,7%) e Porto Rico (de 10,7% para 15,7%). Em Cuba e na República Dominicana, os índices permaneceram estáveis.

Método inovador expõe subnotificação histórica

Conduzida por pesquisadores da Universidade Washington em St. Louis, nos Estados Unidos, e da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, a investigação analisou dados de 16.950 pessoas com 65 anos ou mais, coletados em duas ondas: entre 2003 e 2006 e, novamente, entre 2016 e 2020. O diferencial está no método. Em vez de contabilizar apenas quem chega aos hospitais e consultórios, os pesquisadores foram de casa em casa, entrevistando todos os idosos que aceitaram participar — uma estratégia que alcança justamente quem raramente procura um serviço de saúde e, por isso, costuma ficar de fora das estatísticas.

Para Helder Picarelli, neurocirurgião do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), é esse desenho que dá peso aos resultados. “Ao visitar os idosos em suas casas, os pesquisadores reduzem o viés de seleção que aparece quando os dados vêm só de hospitais e chegam a estimativas muito mais próximas da realidade da população”, afirma.

Projetados para os países, os números do período mais recente indicam cerca de 1,2 milhão de pessoas com demência apenas no México — bem acima das estimativas anteriores, calculadas por modelos estatísticos em vez de contagem direta. Para os autores, é sinal de que a doença vinha sendo subestimada na região.

O aumento que sobra depois dos ajustes

O achado mais intrigante aparece quando os cientistas tentam descontar o efeito da idade e dos fatores de risco já conhecidos. Mesmo depois de considerar diferenças em escolaridade, comportamento e doenças como diabetes e obesidade, o avanço da demência se manteve no México e em Porto Rico. A conclusão dos autores é desconfortável: algo além do que se costuma medir está empurrando esses números para cima.

Picarelli reforça um conceito que ganha espaço na medicina, o expossoma — a soma de todas as exposições ambientais, químicas e sociais que uma pessoa acumula ao longo da vida. “A demência não é determinada apenas por genes ou por doenças conhecidas. O ambiente onde se vive, a poluição, a alimentação, o estresse crônico e o acesso desigual a cuidados de saúde podem estar contribuindo de forma silenciosa para esse aumento”, explica.

O estudo, publicado na JAMA Neurology, reforça a necessidade de políticas públicas específicas para a América Latina, onde o envelhecimento populacional avança mais rápido do que a capacidade dos sistemas de saúde de responder. Enquanto países ricos conseguem reduzir a incidência com prevenção e tratamento precoce, a região enfrenta uma trajetória oposta, com impacto direto sobre milhões de famílias e sistemas de saúde já sobrecarregados.

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