Argentina e Espanha: a final da Copa que reaviva a história colonial entre colônia e metrópole

Espanha e Argentina se enfrentam na final da Copa do Mundo de 2026, em um confronto que reaviva a relação histórica entre metrópole e colônia. O nome do país sul-americano deriva do latim argentum, prata — o mesmo metal que batizou o Rio da Prata. Só que prata, ali, não havia. A palavra guardou por séculos o eco de um boato: o de uma serra reluzente, guardada por um “rei branco”, que fascinou os primeiros europeus a subir os rios do sul do continente. Quando a lenda enfim virou realidade, foi a milhares de quilômetros dali, no cerro de Potosí, na atual Bolívia. Essa distância explicaria quase tudo o que veio depois.

Os europeus chegaram ao atual território argentino em 1516, com a expedição de Juan Díaz de Solís pelo Rio da Prata. Anos depois, a esquadra de Fernão de Magalhães ancorou na baía de San Julián, na atual província de Santa Cruz. O primeiro assentamento europeu, o forte Sancti Spiritus, foi erguido em 1527 à margem do rio Paraná e logo abandonado. O caso de Buenos Aires resume a fragilidade daqueles primeiros anos. Fundada em 1536 por Pedro de Mendoza, enviado pela Coroa para conter o avanço português, a cidade não resistiu: a falta de recursos e a hostilidade dos querandis levaram os espanhóis a abandoná-la em 1541 e recuar para Assunção.

Uma conquista tardia

A região ficou deserta por quase quatro décadas. Diferentemente do México asteca e do Peru inca, lá não havia impérios ricos a saquear, nem minas evidentes a explorar. Para uma monarquia obcecada com metais preciosos, o Rio da Prata era um apêndice sem urgência. O que mudou o cálculo foi Potosí. Descoberta em meados do século 16, a montanha de prata boliviana transformou o sul do continente numa peça estratégica: era preciso abrir uma saída atlântica para escoar o metal andino, o que exigia avançar rumo ao sul e fundar portos ligados diretamente à Espanha. O mito da serra de prata, afinal, tinha um fundo de verdade — só que no lugar errado.

Três correntes, um território

A ocupação efetiva não veio de uma única frente, mas de três, no que é a periodização clássica da historiografia argentina para entender o mapa do país. O povoamento se deu por três correntes colonizadoras: a do leste (a partir da Espanha e, depois, de Assunção), a do oeste (desde o Chile) e a do norte (desde o Alto Peru). A corrente do norte foi a mais produtiva. Descendo do Peru para proteger as minas de Potosí e buscar comunicação com o Atlântico, os espanhóis fundaram Santiago Del Estero, a cidade habitada mais antiga da Argentina. O panorama político geral da época era dominado pela Coroa espanhola, que via a região como um entreposto estratégico para o escoamento de riquezas, enquanto as populações indígenas, como os querandis, resistiam à ocupação. A final da Copa do Mundo entre Argentina e Espanha, portanto, não é apenas um duelo esportivo, mas um reencontro com as raízes coloniais que moldaram a identidade de ambos os países. Para mais contexto histórico, veja também: ONU define tráfico africano como o maior crime contra a humanidade da história.

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