EUA justificam tarifa de 25% sobre produtos brasileiros com acusações de desmatamento; especialistas apontam motivação política

Os Estados Unidos oficializaram a imposição de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, com entrada em vigor prevista para 22 de julho, utilizando como justificativa a alegação de que o Brasil permite o desmatamento. A medida, anunciada pelo governo de Donald Trump, foi recebida com críticas por especialistas ambientais, que a classificam como uma barreira comercial de cunho político, desvinculada da realidade ambiental do país. O secretário executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, afirmou que as análises do governo norte-americano são totalmente infundadas, destacando que a administração Trump tem historicamente se afastado de compromissos ambientais globais, como a saída do Acordo de Paris.

“O governo Trump está usando a questão ambiental para impor barreiras comerciais que servem apenas como uma desculpa. O governo Trump virou as costas para a questão ambiental no mundo inteiro. Saiu do Acordo de Paris”, disse Astrini. Segundo o pesquisador, os Estados Unidos estão levando vantagens comerciais por não aplicarem nenhuma medida de proteção ambiental, como a redução da emissão de carbono. Ele ressaltou que dezenas de outros países também desmatam, mas o argumento não está sendo usado para impor taxas sobre seus produtos, o que reforça o caráter seletivo e político da decisão.

Dados mostram queda histórica no desmatamento brasileiro

Em contraste com as acusações norte-americanas, dados recentes indicam avanços significativos na preservação ambiental brasileira. Marcio Astrini destacou as ações do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) como fundamentais para a redução do desmatamento no país. O Ibama recebeu aportes financeiros do Fundo Amazônia, o que foi importante para intensificar a fiscalização. Segundo estudo do MapBiomas, o desmatamento no Brasil ficou abaixo de 1 milhão de hectares em 2025, um marco inédito desde 2019.

“O Brasil atingiu em 2025 um marco no monitoramento do desmatamento: pela primeira vez desde 2019, a área total de vegetação nativa desmatada ficou abaixo de 1 milhão de hectares em um único ano. De acordo com o RAD2025 (Relatório Anual do Desmatamento no Brasil) foram desmatados 984.794 hectares no país, uma redução de 20,6% em relação a 2024”, dizem os pesquisadores. O MapBiomas é uma iniciativa multi-institucional que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas.

Amazônia e Cerrado juntos responderam por mais de 84% de toda a área desmatada no país em 2025. O Cerrado permanece como o bioma com a maior área desmatada, com 540.614 hectares, concentrando sozinho 54,9% do desmatamento do país, apesar da queda de 16,9% em relação a 2024. Na Amazônia, foram desmatados 289.478 hectares, uma redução de 23,5% frente ao ano anterior. O Pantanal registrou a maior redução proporcional entre todos os biomas: queda de 48,4% na área desmatada.

Panorama político e impactos da medida

A decisão do governo Trump ocorre em um contexto de tensões comerciais globais, com os Estados Unidos adotando medidas protecionistas que afetam diversos parceiros. A tarifa de 25% atinge quase 3 mil produtos brasileiros, gerando preocupações no setor exportador e no governo brasileiro, que aguarda a implementação e possíveis exceções. Especialistas apontam que a medida pode ter impactos significativos na economia brasileira, especialmente em setores como o agropecuário e industrial, que dependem do mercado norte-americano. A reação do Brasil, ainda em calibração, deve considerar tanto a dimensão da decisão quanto as possíveis retaliações comerciais.

Para Marcio Astrini, a justificativa ambiental é uma cortina de fumaça para interesses comerciais. “É uma medida puramente política, não tem nada a ver com a questão ambiental. É apenas uma desculpa para impor uma barreira tarifária ao país”, afirmou. O cenário coloca o Brasil em uma posição delicada, tendo que defender seus avanços ambientais enquanto busca proteger sua economia de medidas que, segundo críticos, ignoram os dados concretos de redução do desmatamento e as políticas de fiscalização implementadas.

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