COP17: acordo global contra secas deve ser adiado novamente, apesar de pressão africana

A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia, caminha para um novo adiamento do acordo global para enfrentar as secas. Apesar de declarações oficiais sinalizarem alguma esperança, negociadores envolvidos diretamente no processo indicam que não há dúvidas sobre o desfecho: a criação de um regime global para lidar com o problema será postergada mais uma vez, repetindo o que já ocorreu na COP16, em Riad, na Arábia Saudita.

O evento termina oficialmente nesta sexta-feira (28), mas um grupo de países já deixou claro que não haverá acordo sobre o tema. A oposição é liderada principalmente pelos Estados Unidos (EUA) e pela União Europeia (UE), mas é compartilhada por outros países sul-americanos como Argentina, Chile e Paraguai. Esses países resistem à criação de um mecanismo multilateral obrigatório, o que tem gerado críticas de organizações ambientais e de nações mais vulneráveis.

Brasil e Arábia Saudita tentam mediar saída

O Brasil se coloca a favor da criação do regime das secas, mas entende que, como não será possível chegar a um consenso mais uma vez, o melhor é manter o tema na agenda para futuras discussões. Até mesmo esse encaminhamento precisou ser mediado durante a semana, principalmente pelo Brasil e pela Arábia Saudita. Enquanto representantes dos Estados Unidos queriam a exclusão total do tema dos documentos finais, países da África insistiam na criação efetiva do mecanismo.

A proposta é defendida por africanos há, pelo menos, três conferências. Historicamente afetados pela escassez hídrica e pela expansão de desertos, eles exigem um mecanismo multilateral para enfrentar o problema de forma coordenada. A pressão africana, no entanto, não foi suficiente para superar a resistência dos países desenvolvidos e de alguns sul-americanos.

Decisão procedimental e próximos passos

O que está acordado até o momento é a apresentação de uma decisão procedimental ao fim da conferência, deixando novas discussões sobre o tema para a COP18, em 2028, que provavelmente será realizada no Egito. Esse formato, no entanto, é visto como insuficiente por ativistas e por países em desenvolvimento, que esperavam avanços concretos agora.

Paralelamente, outros temas têm gerado controvérsia na COP17. Os EUA foram criticados por bloquear discussões sobre gênero e participação social, enquanto estados do Nordeste brasileiro tentam atrair investimentos para a preservação da Caatinga, um dos biomas mais ameaçados do país. A conferência também entrou em semana decisiva com a missão de destravar financiamento para projetos de adaptação, mas o impasse sobre o regime de secas ofuscou os demais avanços.

O cenário reflete um impasse mais amplo nas negociações climáticas multilaterais, onde interesses econômicos e políticos frequentemente se sobrepõem à urgência ambiental. A expectativa agora é que a COP18, no Egito, possa finalmente concretizar o regime global, mas analistas alertam que, sem mudanças na postura de países como EUA e UE, o ciclo de adiamentos pode se repetir.

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