Bolívia: ativista baleada exige transparência e Justiça determina fim do sigilo em investigação de atentado

Em meio à comoção política na Bolívia, o presidente do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), Rómer Saucedo, anunciou que atendeu ao pedido da advogada e ativista Nadia Beller, de 33 anos, e determinou que a investigação sobre o atentado a tiros sofrido por ela não seja mantida sob sigilo. A medida, divulgada nesta semana, busca garantir transparência e o pleno acesso das partes ao inquérito, em um caso que já provoca tensão no cenário político boliviano.

“Em resposta ao pedido da vítima e amiga, que pede que o caso não seja declarado sigiloso, instruí ao juiz da causa que não declare o processo confidencial, para que ela [Nadia] possa ter acesso a todas as informações e para que lhe sejam fornecidas todas as garantias necessárias”, afirmou Saucedo a jornalistas. O magistrado também revelou que solicitou ao presidente do Tribunal de Justiça de Santa Cruz de la Sierra que empenhe todos os esforços necessários para esclarecer o caso. “Isto significa que se o MP apresentar um requerimento a qualquer hora do dia, o juiz tem a obrigação de [atender os promotores] e emitir [a ordem judicial requerida] imediatamente”, acrescentou, voltando a classificar Nadia como uma “amiga”.

O atentado e a prisão do suspeito

Na última segunda-feira (17), Nadia Beller estava na calçada, diante de um hotel de Santa Cruz, quando dois motociclistas não identificados se aproximaram e efetuaram vários disparos à queima-roupa. Segundo o Ministério Público, ao menos três tiros atingiram a ativista: um na região do pescoço, outro no tórax e um terceiro no braço direito. O ataque, ocorrido em plena via pública, gerou comoção e levantou suspeitas sobre motivações políticas.

Na terça-feira (18), agentes da Força Especial de Combate ao Crime detiveram o argentino Fernando Cerimedo, 45, apontado pelas autoridades como principal suspeito do atentado. Conselheiro do presidente boliviano Rodrigo Paz, que assumiu o cargo em novembro de 2025, e ex-estrategista de campanha do mandatário argentino Javier Milei, Cerimedo já reconheceu ter tido um relacionamento amoroso com Nadia – que, segundo autoridades bolivianas, afirma estar grávida de poucos meses. Ele foi detido no Aeroporto Internacional Viru Viru, próximo a Santa Cruz, quando estava prestes a embarcar em um voo com destino à Argentina.

Acusações e contexto político

Internada em uma unidade de saúde de Santa Cruz, Nadia Beller acusa Cerimedo de ser o mandante do atentado. Ainda no leito, a ativista gravou um vídeo e concedeu entrevistas em que afirma ter ido ao hotel para encontrar uma pessoa que prometeu lhe entregar provas que comprometeriam o ex-presidente boliviano Evo Morales. De acordo com Nadia, Cerimedo a incentivou a atender ao chamado e ir ao hotel, garantindo que, no local, haveria seguranças. “Ele me disse: ‘Ah, sim, eu soube desse caso’. E como, anteriormente, eu tinha dito a ele que estava receosa”, relatou a ativista, em declarações reproduzidas pela imprensa local.

O caso expõe as fraturas políticas na Bolívia, onde a disputa entre o governo de Rodrigo Paz e o ex-presidente Evo Morales segue acirrada. A decisão de tornar o inquérito público é vista como um passo para evitar especulações e garantir que a apuração seja conduzida com imparcialidade, em um momento de alta sensibilidade institucional. A expectativa é que as autoridades avancem nas investigações, ouvindo testemunhas e analisando as provas que a ativista afirma ter buscado no hotel.

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