Em meio a uma escalada de tensões diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos, o cientista político britânico Anthony Pereira avalia que o governo de Donald Trump prioriza uma guerra ideológica contra o país em detrimento de interesses estratégicos mútuos, como cooperação em minérios críticos, etanol e proteção ambiental. A análise foi feita em entrevista à BBC News Brasil, no mesmo dia em que Washington revogou o visto da embaixadora brasileira, aprofundando uma crise que já incluía ataques do secretário de Estado Marco Rubio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a indicação de um embaixador americano sem consulta prévia ao protocolo diplomático.
Pereira, que dirige o Roger Thayer Stone Center for Latin American Studies na Universidade Tulane, em Nova Orleans, e fundou o Brazil Institute do King’s College, em Londres, acompanha as eleições brasileiras desde 1989 e é autor de obras de referência sobre o país, como Ditadura e Repressão. Para ele, a decisão do governo Trump reflete uma visão político-partidária do Brasil, ignorando o potencial de cooperação bilateral em áreas como segurança pública, energia renovável e preservação da Amazônia.
Contexto regional e crise com a Argentina
No cenário regional, a entrevista ocorreu dias após a visita do presidente argentino Javier Milei a São Paulo, onde participou do lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) e chamou Lula de ‘ladrão, corrupto e presidiário’. O episódio levou o governo brasileiro a rebaixar o nível das relações diplomáticas com Buenos Aires. Para Pereira, a atitude de Milei reflete menos a política externa argentina e mais a tentação do líder em se tornar ‘a grande estrela global da direita’, dividido entre a necessidade de recuperar a economia do país e o desejo de protagonismo ideológico.
O analista também destacou que a onda de direita na América Latina apresenta pontos em comum, como o discurso antissistema, mas também divisões internas, especialmente em relação a alinhamentos internacionais e políticas econômicas. Ele observou que, apesar do isolamento diplomático do Brasil, ainda há espaço para cooperação pragmática em temas globais.
Riscos para a democracia brasileira em 2026
Pereira expressou preocupação com o cenário eleitoral brasileiro de 2026. Em 2022, a disputa presidencial foi marcada pela defesa da democracia; agora, ele teme que a polarização e a interferência externa possam enfraquecer as instituições. ‘O maior risco é que a eleição seja vista como uma batalha existencial, e não como uma disputa normal entre projetos políticos’, afirmou. Apesar dos desafios, o cientista político disse não ser pessimista quanto ao futuro do país, citando a resiliência das instituições e a capacidade da sociedade civil de se mobilizar.
A entrevista foi concedida em um momento de tensão aguda entre Brasília e Washington, com a revogação do visto da embaixadora brasileira e a indicação de um embaixador americano sem o tradicional aval do governo brasileiro. Pereira criticou a postura de Marco Rubio, que fez ataques pessoais a Lula e acusações sem fundamento sobre a negociação brasileira. ‘Se olhassem estrategicamente, veriam o Brasil como parceiro em minerais críticos, no combate ao crime organizado e na produção de etanol’, destacou.
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