Em 6 de agosto de 1945, os Estados Unidos lançaram uma bomba atômica sobre Hiroshima; três dias depois, outra atingiu Nagasaki, matando mais de 210 mil pessoas, incluindo mortes posteriores por radiação. Esses foram os únicos casos de uso de armas nucleares em conflito armado. Agora, 81 anos depois, o Japão reabre o debate sobre sua política nuclear, em meio a mudanças na estratégia de defesa nacional e pressões regionais.
A primeira-ministra Sanae Takaichi está conduzindo uma ampla revisão da estratégia de defesa do país, diante do fortalecimento militar da China e da Coreia do Norte e das incertezas sobre o papel dos Estados Unidos na segurança regional. Durante a cerimônia em Hiroshima, na quinta-feira, Takaichi foi questionada diretamente pelo sobrevivente Satoshi Tanaka sobre uma possível mudança nos três princípios não nucleares. Ela respondeu que o Japão “atualmente” segue esses princípios, mas não esclareceu se pretende mantê-los no futuro, gerando preocupação entre sobreviventes e grupos pacifistas.
Os três princípios não nucleares
Desde 1967, o Japão segue os chamados três princípios não nucleares: não possuir, não produzir e não permitir a introdução de armas nucleares em seu território. A manutenção desses princípios entrou no centro do debate político, com setores do governo defendendo uma discussão mais aberta sobre o tema.
No mês passado, o ministro da Defesa, Shinjiro Koizumi, defendeu uma discussão “sem tabus” sobre armas nucleares, abrindo espaço para um debate que permaneceu fora da agenda política japonesa por décadas. Em dezembro, um alto funcionário do governo, cuja identidade não foi revelada, teria defendido, em conversa extraoficial com jornalistas, que o Japão deveria possuir armas nucleares, declaração posteriormente divulgada por grandes veículos de comunicação japoneses.
Pressão por maior capacidade militar
O governo Takaichi vem adotando uma política de defesa mais ativa, com aumento dos gastos militares, suspensão da proibição autoimposta à exportação de armas e defesa de uma revisão da Constituição pacifista. Os defensores de mudança nos princípios nucleares argumentam que o último deles — o compromisso de não permitir a introdução de armas nucleares no Japão — deveria ser discutido, com a possibilidade de permitir que os Estados Unidos levem armas nucleares ao território japonês como parte da estratégia de dissuasão na região.
Por outro lado, Hirofumi Yoshimura, líder do Partido da Inovação do Japão, integrante da coalizão governista, defendeu a manutenção dos princípios de não possuir e não produzir armas nucleares, mas afirmou que existem questões a serem debatidas. O panorama político japonês reflete um equilíbrio delicado entre segurança regional e compromissos históricos com o pacifismo, enquanto o mundo observa os desdobramentos dessa discussão.
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