A primeira-dama Janja da Silva defendeu, nesta semana, que o Discord seja retirado “imediatamente” do ar no Brasil, após o caso de uma menina de 13 anos que teria sido coagida por outros usuários a se suicidar durante uma transmissão ao vivo na plataforma. A declaração ocorreu durante cerimônia no Palácio do Planalto na quinta-feira (7/8), quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou lei que amplia a punição para crimes de violência sexual contra crianças e adolescentes. A fala gerou reações divergentes: enquanto autoridades defendem medidas enérgicas, especialistas alertam que o bloqueio pode não resolver o problema e ainda empurrar usuários para ambientes virtuais ainda menos regulados.
A polícia apreendeu na terça-feira (4/8) cinco adolescentes, com idades entre 13 e 17 anos, e prendeu um homem de 18 anos, todos acusados de envolvimento na morte da adolescente de Naviraí, em Mato Grosso do Sul, ocorrida em 22 de julho. As investigações apontam que o grupo usava o Discord e também o aplicativo de mensagens Telegram para atrair vítimas meninas, disseminar discursos de ódio, promover a radicalização de jovens e estimular comportamentos violentos.
Reações institucionais e medidas anunciadas
Durante o evento, a primeira-dama afirmou: “A gente precisa bloquear o Discord no Brasil de qualquer forma. Não posso aceitar ver uma menina de 13 anos se mutilar ao vivo na internet, no Discord, se enforcar e morrer. Não consigo admitir um país desse.” Em resposta, o Secretário Nacional de Direitos Digitais do Ministério da Justiça, Victor Fernandes, revelou que a polícia chegou a pedir a suspensão da plataforma, mas o pedido foi negado pelo Judiciário. Já o advogado-geral da União, Jorge Messias, informou que solicitou ao Ministério da Justiça o encaminhamento de todas as informações sobre o caso e sobre o Discord para que seja preparada uma ação civil pública contra a plataforma.
Dados alarmantes e histórico de violência
Dados da Safernet, organização não governamental de defesa dos direitos humanos na internet, mostram que, de janeiro a julho de 2026, o número de denúncias envolvendo o Discord aumentou 54% na comparação com o mesmo período do ano passado. Foram 406 denúncias em 2026 até agora, contra 264 nos primeiros sete meses de 2025, um recorde para o período na série histórica iniciada em 2017. Nos últimos anos, o Discord tem figurado em episódios de violência extrema, incluindo crimes como venda de armas, drogas e explosivos; planejamento de ataques a escolas e tiroteios em massa; compartilhamento de conteúdo extremista, imagens e vídeos de abusos a crianças e adolescentes, e de tortura contra animais; além de extorsão sexual, tráfico de pessoas e incentivo à automutilação, incluindo suicídio.
Especialistas questionam eficácia do bloqueio
Apesar da gravidade dos casos, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que bloquear o serviço no Brasil, como pede Janja, não é a solução para os graves problemas de moderação de conteúdo da plataforma. A medida poderia, na verdade, incentivar os usuários a usarem ferramentas para continuar no Discord (como VPNs) ou empurrá-los para outras plataformas com políticas de moderação ainda mais frágeis, ampliando os riscos para crianças e adolescentes. O debate acende um alerta sobre a necessidade de políticas públicas mais amplas de proteção online, que envolvam não apenas a suspensão de serviços, mas também a responsabilização das empresas de tecnologia e a educação digital da população.
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