Pedro II enfrenta pressão por educação sobre violência de gênero

Alunos do Colégio Pedro II protestam contra silêncio institucional e exigem aulas sobre violência de gênero e educação sexual após casos de estupro envolvendo estudantes.

Pedro II enfrenta pressão por educação sobre violência de gênero

Estudantes do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, organizaram protesto nesta terça-feira (10) em frente à reitoria para exigir a retomada de aulas sobre violência de gênero e educação sexual, respondendo aos casos de estupro coletivo envolvendo alunas da instituição.

A Polícia Civil investiga três casos de estudantes atacadas por membros do mesmo grupo criminoso, incluindo um adolescente apontado como organizador das agressões. A porta-voz dos manifestantes, Ana Belarmino, destacou que uma vítima inicialmente duvidava se havia sido abusada, evidenciando lacunas na formação educacional sobre o tema.

Segundo Ana Belarmino, “Se existisse conhecimento real sobre violência, nenhuma aluna ficaria em dúvida sobre abuso”. Ela criticou a pressão de movimentos como “Escola Sem Partido” que forçaram o silenciamento sobre educação sexual e pensamento crítico na instituição centenária.

Em 2019, parlamentares ligados ao União Brasil invadiram o campus buscando material didático com alegada conotação política, conforme registram documentos escolares. A Polícia Federal removeu os legisladores do local após não encontrarem nada ilegal. Esses episódios contribuíram para o recuo da escola em abordar temas sensíveis.

Política de combate ao assédio permanecia engavetada

A reitoria aprovou uma política contra assédio em 2025, mas não a implementou. Apenas na segunda-feira (9), um dia antes do protesto, a administração criou por norma interna uma comissão para investigar assédio moral, sexual, discriminação e racismo.

A professora Priscila Bastos, que acompanha a pauta desde 2018 representando o sindicato de servidores, afirmou que a instituição criou entraves burocráticos propositais. “Denúncias eram classificadas como falta de urbanidade e demoravam até dois anos para apuração”, relatou.

O estudante Gabriel Pinho Leite Monteiro, presidente do grêmio do campus onde estudavam vítimas e agressores, reforçou que combater assédio “nada tem a ver com doutrinação política”. Ele defendeu que a escola forme “novos homens que não violentem mulheres”.

O Coletivo Resistência, grupo de pais e ex-alunos que surgiu em defesa da escola após invasão parlamentar, também apoia a política ampla de combate ao assédio. Sua representante, Maíra Arêas, alertou que o problema não é isolado: “Violência contra meninas existe em todas as instituições públicas e privadas”.

Arêas propôs que o Congresso Nacional aprove lei obrigando escolas a discutirem gênero, raça e sexualidades. “O Estado brasileiro, incluindo Governo e Legislativo, precisa criar políticas públicas de proteção”, afirmou a mãe de aluno.

A reitoria do Pedro II negou silêncio institucional em nota à imprensa, garantindo que desde janeiro de 2026 desenvolve “ações de acolhimento, prevenção e apuração de condutas inadequadas”. A instituição reafirmou que violência sempre foi tema tratado com seriedade pela gestão escolar.

Legislação nacional prevê educação em gênero e sexualidade

O Programa Saúde na Escola do Ministério da Educação e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelecem que temas de gênero e educação sexual devem ser abordados nas redes escolares. Contudo, setores conservadores argumentam que essas aulas estimulam atividade sexual precoce, posição contestada por estudos científicos que apontam o contrário.

O impasse entre educadores e setores reacionários persiste há anos, travando políticas públicas que comprovadamente reduzem violência sexual e discriminação nas escolas brasileiras.

 

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