A soberania, palavra-chave da campanha do presidente Lula contra o tarifaço e em defesa do PIX, tornou-se também instrumento da campanha do senador Flávio Bolsonaro, que apresentou à Justiça Eleitoral, nesta quinta-feira (13), um programa de governo no qual o termo aparece 12 vezes. A equipe do candidato do PL avalia que a apropriação do conceito é uma forma de fazer um “contraponto à narrativa da esquerda” e de trazer a discussão para o campo da segurança pública, tema que o partido considera “confortável” e que lidera as preocupações do eleitorado, segundo pesquisas do instituto Quaest.
O programa de governo de Flávio Bolsonaro traz um subtítulo específico: “soberania com profissionalismo, não com ideologia”. No documento, a soberania é definida como “a capacidade de uma nação governar a si própria, fazer suas leis e cuidar do seu território”, e o texto afirma que ela “se exerce na prática, com ações concretas, e não repetindo a palavra ‘soberania’ a todo momento”. A proposta central é ressignificar o conceito para o debate doméstico: “A soberania não começa longe, começa dentro de casa”, diz o programa, que acrescenta: “De nada adianta um país erguer a voz contra inimigos distantes se não protege o próprio cidadão na esquina de casa, do assaltante, do traficante, do medo que tira a liberdade de andar na rua”.
O movimento ocorre em um cenário em que a soberania nacional foi elevada a discurso oficial do governo Lula desde a imposição do tarifaço pelo governo de Donald Trump, no ano passado. A narrativa se intensificou após críticas dos Estados Unidos ao PIX e a decisão do governo norte-americano de classificar facções brasileiras como terroristas. Petistas avaliam que o discurso tem funcionado eleitoralmente e contribuído para a imagem do presidente, enquanto o desgaste do tarifaço é frequentemente associado à família Bolsonaro, especialmente pela atuação do deputado cassado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, junto a autoridades norte-americanas.
O programa de Flávio Bolsonaro também critica a visita do ex-presidente da Venezuela Nicolás Maduro ao Palácio do Planalto, durante o governo Lula, e defende a reaproximação com Estados Unidos, Israel e Argentina. Integrantes do núcleo duro da campanha do senador afirmam que a intenção é puxar o debate para a segurança pública, tema que consideram mais próximo do eleitor comum. “O Lula só quer dizer que briga com quem está a 10 mil quilômetros de distância, mas não briga com quem está roubando o seu celular na rua da sua casa”, explicou uma fonte da campanha.
A disputa em torno do conceito de soberania evidencia uma estratégia de comunicação que busca conectar temas internacionais a preocupações cotidianas, em um ano eleitoral marcado por polarização e pela centralidade da segurança pública nas pesquisas de opinião. Enquanto o governo federal aposta na defesa da autonomia nacional contra pressões externas, a oposição tenta redirecionar o debate para o campo da proteção individual e da ordem interna, sinalizando uma disputa de narrativas que deve se intensificar nos próximos meses.
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