O endividamento das famílias e a inflação elevada são fatores que afetam o varejo brasileiro de forma mais intensa do que a recente taxação de compras internacionais de até US$ 50, conhecida como ‘taxa das blusinhas’. A avaliação é do CEO da Wagner Investimentos, José Faria Júnior, em entrevista ao CNN Money, publicada nesta semana. Para o especialista, o consumidor brasileiro está com menos capacidade de compra devido ao comprometimento da renda com dívidas e ao aumento generalizado dos preços, o que reduz a demanda no comércio varejista.
Segundo Faria Júnior, a taxação de importados, que entrou em vigor em agosto de 2024, tem impacto limitado sobre o varejo como um todo, pois atinge uma parcela específica do consumo. ‘O problema central é a renda disponível das famílias. Com juros altos e inflação pressionando os custos básicos, o consumidor prioriza itens essenciais e corta gastos discricionários’, explicou. Ele acrescentou que o varejo sofre mais com a queda no volume de vendas do que com a concorrência de produtos importados, que representam uma fração pequena do mercado.
Panorama econômico e impacto no setor
O cenário descrito pelo especialista reflete um momento de aperto financeiro para a população brasileira. Dados recentes mostram que o endividamento das famílias atingiu níveis recordes, com cerca de 78% das famílias comprometidas com alguma dívida, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A inflação acumulada em 12 meses, embora em desaceleração, ainda supera a meta do Banco Central, pressionando o custo de vida.
Para o varejo, isso significa um desafio duplo: por um lado, a demanda interna enfraquecida; por outro, o custo operacional elevado, com repasses de energia, aluguel e logística. ‘O varejista precisa se adaptar a um consumidor mais seletivo, que pesquisa preços e busca ofertas. A taxa das blusinhas é um tema relevante, mas não é o principal motor do setor’, ponderou Faria Júnior.
Repercussão e perspectivas
A declaração do CEO da Wagner Investimentos ocorre em meio a um debate nacional sobre a competitividade do comércio local frente às plataformas internacionais. Enquanto alguns setores defendem medidas protecionistas, especialistas apontam que a solução passa pelo fortalecimento da renda e pelo controle da inflação. ‘A retomada consistente do consumo depende de juros mais baixos e de um mercado de trabalho aquecido. Sem isso, qualquer taxação terá efeito marginal’, concluiu.
O varejo, que representa cerca de 20% do PIB brasileiro, deve encerrar 2024 com crescimento modesto, segundo projeções do Instituto Brasileiro de Economia (FGV). A expectativa é de que o setor se recupere gradualmente em 2025, caso o ciclo de cortes na Selic se confirme e a inflação continue cedendo. Enquanto isso, a ‘taxa das blusinhas’ segue como pauta política, mas, na prática, o termômetro do varejo está mais ligado ao bolso do consumidor do que às tarifas de importação.
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