A sigla ESG (Environmental, Social & Governance ou Meio ambiente, Social e Governança), que por mais de duas décadas serviu como uma bússola essencial para investidores, empresas e governos na busca por alinhar desempenho econômico com responsabilidades ambientais e sociais, encontra-se agora no centro de um debate crucial: a compatibilidade entre sua versão inicial, o ESG 1.0, e as exigências de uma nova era, o ESG 2.0. A questão, levantada em coluna da Folha de S.Paulo em 4 de fevereiro de 2026, às 23h00, por Bráulio Borges, sugere uma profunda reavaliação dos pilares que sustentaram a agenda de sustentabilidade global, apontando para uma possível incompatibilidade que pode remodelar fundamentalmente o futuro dos negócios e da governança.
O ESG 1.0 representou um marco significativo na integração de fatores não financeiros nas decisões estratégicas. Durante seus anos de consolidação, ele impulsionou a adoção de relatórios de sustentabilidade, a mitigação de riscos ambientais e sociais, e a melhoria da governança corporativa. Empresas passaram a ser avaliadas não apenas por seus lucros, mas também por sua pegada de carbono, suas práticas trabalhistas e a diversidade de seus conselhos. Governos, por sua vez, começaram a incorporar esses princípios em suas políticas públicas e regulamentações, visando a um desenvolvimento mais equilibrado e responsável. Essa fase inicial foi fundamental para conscientizar o mercado e a sociedade sobre a interconexão entre economia, meio ambiente e bem-estar social.
No entanto, a emergência do ESG 2.0 surge de uma percepção crescente de que as abordagens iniciais, embora importantes, podem não ser suficientes para enfrentar a magnitude dos desafios contemporâneos. Críticas ao “greenwashing” – a prática de empresas que se promovem como ambientalmente corretas sem um compromisso real – e a lentidão na reversão de crises climáticas e sociais intensificaram a demanda por uma transformação mais radical. O ESG 2.0 clama por uma mudança de paradigma, focando não apenas na minimização de impactos negativos, mas na geração de valor positivo e mensurável, na promoção de uma economia regenerativa e na construção de sistemas mais equitativos e resilientes. Isso implica ir além da conformidade e da gestão de riscos, buscando uma integração profunda dos princípios ESG no propósito central e no modelo de negócios das organizações.
A tensão entre o ESG 1.0 e o ESG 2.0 reside, portanto, na profundidade e na urgência da mudança. Enquanto o primeiro estabeleceu as bases e as métricas iniciais, o segundo exige uma redefinição do que significa ser uma empresa ou um governo “sustentável”. A incompatibilidade sugerida questiona se as estruturas e mentalidades do ESG 1.0 podem realmente acomodar as ambições transformadoras do ESG 2.0, ou se uma ruptura é necessária. Essa nova fase exige maior transparência, métricas de impacto mais rigorosas e um compromisso inabalável com a responsabilidade social e ambiental, desafiando modelos de negócios tradicionais e pressionando por inovações que realmente contribuam para um futuro sustentável.
No panorama político, essa evolução do conceito ESG tem implicações profundas. Governos ao redor do mundo, incluindo o Brasil, estão sob pressão para desenvolver políticas que não apenas incentivem, mas exijam práticas mais robustas de sustentabilidade. A forma como o poder público se posiciona diante dessa transição do ESG 1.0 para o ESG 2.0 pode determinar o sucesso ou o fracasso das agendas climáticas e sociais. Mudanças na cúpula do governo, como a reconfiguração federal com a saída de 18 ministros de Lula, ou as ondas de desincompatibilização que remodelam o cenário político em estados como Alagoas, podem impactar diretamente a priorização e a implementação de políticas relacionadas ao ESG. A instabilidade política ou a mudança de foco podem atrasar a adoção de medidas mais ambiciosas, enquanto governos comprometidos podem acelerar a transição para um modelo mais alinhado com o ESG 2.0, influenciando investimentos e a competitividade nacional.
Para o futuro, a questão central permanece: o ESG 1.0 é um trampolim ou um obstáculo para o ESG 2.0? A resposta dependerá da capacidade de adaptação de empresas, investidores e, crucialmente, de governos. A exigência por uma verdadeira transformação, que vá além da retórica e se materialize em ações concretas e mensuráveis, é a força motriz por trás do ESG 2.0. O desafio é grande, mas a oportunidade de construir um futuro mais resiliente e equitativo é ainda maior, exigindo uma colaboração sem precedentes entre todos os setores da sociedade para redefinir o significado de progresso e prosperidade.
Fonte: ver noticia original
