Deputados aliados do presidente Lula (PT) desembarcaram nesta semana em Washington em uma tentativa de ampliar a interlocução com parlamentares democratas e apresentar uma narrativa alternativa à levada aos Estados Unidos pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro.

A missão, articulada nos bastidores do Palácio do Planalto, ocorre em um momento de crescente tensão diplomática entre Brasil e EUA, agravada pela aproximação de setores da oposição brasileira com o ex-presidente Donald Trump. Enquanto os bolsonaristas buscam capitalizar politicamente nos EUA, os emissários de Lula tentam reequilibrar a balança e evitar que a imagem do Brasil seja associada exclusivamente à extrema direita internacional.

O deputado André Janones (Avante-MG), um dos articuladores da viagem, afirmou que “faltou humildade” ao governo brasileiro ao avaliar previamente a relação entre Bolsonaro e Trump. Segundo ele, subestimar a influência do ex-presidente brasileiro no cenário norte-americano foi um erro estratégico que agora precisa ser corrigido com diálogo direto e construção de pontes.

A delegação petista tem se reunido com membros da Câmara dos Representantes e do Senado dos EUA, além de think tanks e organizações da sociedade civil. O objetivo é apresentar dados sobre a economia brasileira, os avanços sociais e a política ambiental do governo Lula, contrastando com o que classificam como “desinformação” propagada pelos bolsonaristas.

Do outro lado, Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro intensificaram a agenda em Washington, com encontros com parlamentares republicanos e ex-integrantes da administração Trump. Eles defendem uma linha de oposição mais dura ao governo Lula e tentam pavimentar o caminho para uma eventual candidatura de Jair Bolsonaro em 2026.

O movimento expõe a fragmentação da política externa brasileira e a disputa por narrativa em solo estrangeiro. Enquanto o governo Lula aposta na via diplomática tradicional, a oposição bolsonarista adota uma estratégia de alinhamento automático com a direita global, o que gera ruídos tanto em Brasília quanto em Washington.

Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que a viagem dos aliados de Lula é um aceno necessário, mas insuficiente para reverter o quadro de polarização. “A influência bolsonarista nos EUA não se desfaz com uma visita. É preciso uma estratégia de longo prazo, que inclua comunicação digital e parcerias com setores progressistas americanos”, analisa o cientista político Carlos Melo, do Insper.

Até o fechamento desta edição, a Casa Branca não se manifestou oficialmente sobre a presença dos parlamentares brasileiros em Washington. A expectativa é que novos encontros ocorram nos próximos dias, incluindo uma possível reunião com integrantes do Departamento de Estado.

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