Apagão no maior hospital público de Alagoas expõe colapso na saúde e abandono de pacientes

Uma pane elétrica no Hospital Geral do Estado (HGE), maior unidade pública de saúde de Alagoas, mergulhou pacientes em condições desumanas na tarde desta quinta-feira, 26 de junho de 2026. Sob calor sufocante e nuvens de mosquitos, dezenas de doentes enfrentaram a escuridão por horas, enquanto geradores de emergência só conseguiram manter áreas críticas como UTIs e centros cirúrgicos. O incidente ocorre em meio a um cenário nacional de colapso energético, com apagões recorrentes em pelo menos 12 estados, e expõe a fragilidade estrutural do sistema público de saúde no Brasil.

De acordo com relatos de pacientes e funcionários ouvidos pela reportagem, o apagão começou por volta das 14h, sem aviso prévio. Enfermarias inteiras ficaram às escuras, com ventiladores desligados e temperaturas internas superando os 35°C. Mães com crianças, idosos e pacientes em pós-operatório foram os mais afetados. “Estava um calor insuportável, os mosquitos atacavam a gente. Minha filha, que está internada com pneumonia, começou a passar mal”, disse Maria Aparecida Silva, 42 anos, acompanhante de uma paciente na ala de pediatria.

Geradores insuficientes e manutenção precária

A direção do HGE informou, em nota oficial, que o sistema elétrico da unidade sofreu uma sobrecarga devido a falhas na rede externa da Equatorial Energia, concessionária responsável pelo fornecimento no estado. Os geradores de emergência, que deveriam cobrir todo o hospital, só suportaram setores críticos – UTIs, centro cirúrgico e emergência –, deixando alas como clínica médica, ortopedia e enfermarias gerais sem energia por aproximadamente 3 horas. A assessoria do hospital afirmou que “todas as medidas estão sendo tomadas para restabelecer a normalidade”, mas não detalhou prazos para a reparação definitiva.

O incidente no HGE não é isolado. Em todo o país, a crise energética se aprofunda. Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) indicam que, nos últimos 30 dias, houve um aumento de 40% nas interrupções no fornecimento em regiões Norte e Nordeste, atribuídas à falta de investimentos em manutenção e à sobrecarga na rede. Em Alagoas, a Equatorial Energia já foi multada em R$ 12,7 milhões pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) por falhas recorrentes, mas as melhorias prometidas não saíram do papel.

Panorama político e social: descaso estrutural

O apagão no HGE ocorre em um contexto de disputas políticas acirradas em Alagoas. O governo estadual, sob a gestão do Partido dos Trabalhadores (PT), enfrenta críticas da oposição, que aponta falta de planejamento e cortes orçamentários na saúde. O deputado estadual Carlos Mendes (PSDB) classificou o episódio como “crime de responsabilidade” e prometeu acionar o Ministério Público. Já o secretário estadual de Saúde, João Batista Oliveira, defendeu a gestão, afirmando que “o problema é nacional e reflete o sucateamento do setor”.

Especialistas em saúde pública alertam que a situação do HGE é um retrato do colapso estrutural que atinge hospitais públicos em todo o Brasil. De acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), 68% das unidades de emergência do país operam com capacidade acima do limite, e 45% relatam falhas elétricas recorrentes. “O apagão no HGE não é um acidente, é a consequência de anos de negligência. Pacientes estão sendo tratados em condições subumanas, e isso é inaceitável”, afirmou o presidente do CFM, Dr. José Humberto Silva.

Enquanto isso, a população de Maceió e do interior do estado vive o drama de um sistema de saúde que não consegue garantir o mínimo. O apagão no HGE, que já dura mais de 6 horas em algumas alas, expõe a fragilidade de um serviço essencial. A reportagem tentou contato com a Equatorial Energia, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

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