Após três décadas de buscas, navio holandês do século 17 carregado de ouro é finalmente identificado no litoral brasileiro

Após mais de três décadas de investigações e escavações subaquáticas, uma equipe internacional de arqueólogos e pesquisadores conseguiu identificar oficialmente os restos de um navio holandês do século 17 que naufragou carregado de ouro e prata no litoral brasileiro. A embarcação, pertencente à Companhia das Índias Ocidentais (WIC, na sigla em holandês), afundou durante uma tempestade na costa do atual estado de Pernambuco, no ano de 1668, quando transportava um carregamento avaliado, em valores atuais, em centenas de milhões de dólares. A confirmação da identidade do navio foi possível graças à análise de documentos históricos, mapas da época e tecnologias de imageamento submerso, conforme divulgou o portal TNH1.

A descoberta é resultado de um longo trabalho de pesquisa iniciado ainda na década de 1990, envolvendo historiadores, arqueólogos marinhos e mergulhadores especializados. O navio, que até então era conhecido apenas por relatos de naufrágios na região, foi localizado a cerca de 30 quilômetros da costa pernambucana, a uma profundidade de aproximadamente 50 metros. As primeiras suspeitas surgiram quando mergulhadores encontraram fragmentos de cerâmica e moedas de prata do período colonial holandês no Brasil. A partir daí, uma força-tarefa multidisciplinar passou a cruzar dados de arquivos na Holanda, Portugal e Brasil.

O contexto histórico e econômico do naufrágio

O naufrágio ocorreu em um período de intensa disputa colonial entre holandeses e portugueses pelo controle do Nordeste brasileiro e de suas riquezas. A Companhia das Índias Ocidentais havia ocupado a região de Pernambuco entre 1630 e 1654, e mesmo após a expulsão, continuou a operar rotas comerciais na costa. O navio identificado fazia parte de uma frota que transportava ouro extraído de minas na América do Sul e prata de Potosí (atual Bolívia) para a Europa. Estima-se que a carga incluía mais de 2.000 moedas de ouro e 10.000 moedas de prata, além de barras do metal precioso e pedras semipreciosas.

O impacto econômico da perda foi significativo para a Companhia das Índias Ocidentais, que já enfrentava dificuldades financeiras. O naufrágio contribuiu para a crise da empresa, que viria a ser dissolvida no final do século 17. Para o Brasil colônia, a notícia do naufrágio alimentou lendas locais sobre tesouros perdidos, que por séculos atraíram aventureiros e caçadores de fortunas.

O processo de identificação e as tecnologias envolvidas

A identificação definitiva só foi possível após a combinação de métodos tradicionais de pesquisa histórica com tecnologias de ponta. Os pesquisadores utilizaram sonares de varredura lateral e veículos operados remotamente (ROVs) para mapear o sítio arqueológico submerso. A análise de amostras de madeira do casco, por meio de dendrocronologia, permitiu datar a construção do navio entre 1650 e 1660, compatível com os registros da Companhia das Índias Ocidentais. Além disso, a descoberta de um sino de bronze com inscrições em holandês antigo e a identificação de um canhão com o brasão da Província da Holanda foram cruciais para a confirmação.

O coordenador da pesquisa, o arqueólogo marinho Dr. Robert van der Heijden, da Universidade de Leiden, destacou que o trabalho exigiu paciência e colaboração internacional. “Foram 30 anos de coleta de pistas, desde documentos em arquivos de Amsterdã até relatos de pescadores locais. Cada fragmento encontrado no fundo do mar era uma peça de um quebra-cabeça histórico”, afirmou o pesquisador, em entrevista ao portal TNH1.

Implicações legais e patrimoniais

A identificação do navio reacende o debate sobre a propriedade e a exploração de naufrágios históricos. O sítio arqueológico está localizado em águas jurisdicionais brasileiras, o que, pela legislação nacional, confere ao Governo Federal a titularidade sobre os bens submersos. No entanto, a Holanda já manifestou interesse em reivindicar a carga como patrimônio cultural, com base em tratados internacionais de proteção ao patrimônio subaquático. A Companhia das Índias Ocidentais não existe mais, mas seus sucessores legais, como o Governo dos Países Baixos, podem entrar com pedidos de repatriação.

Empresas de exploração de tesouros, como a Ocean Discovery Ltd., também monitoram o caso, visando a possibilidade de resgate comercial. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) já anunciou que abrirá um processo de tombamento do sítio arqueológico, o que impediria qualquer intervenção não autorizada. A situação promete gerar controvérsias jurídicas e diplomáticas nos próximos meses.

Panorama político e cultural

A descoberta ocorre em um momento de crescente interesse internacional pelo patrimônio submerso da costa brasileira. Nos últimos anos, outros naufrágios históricos foram identificados, como o do galeão espanhol Nuestra Señora del Rosario (1618) e do navio negreiro Camargo (1830). O governo brasileiro, por meio do Ministério da Cultura, tem buscado fortalecer a legislação de proteção, mas enfrenta pressão de grupos que defendem a exploração econômica dos tesouros.

Para a comunidade científica, a identificação do navio holandês representa uma oportunidade ímpar de estudar a tecnologia naval do século 17 e as rotas comerciais do Atlântico Sul. O sítio arqueológico será preservado in situ, com monitoramento contínuo, e os pesquisadores planejam expor parte do material recuperado em museus brasileiros e holandeses, como forma de promover o diálogo cultural entre os dois países.

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