A Polícia Civil de Alagoas prendeu, nesta semana, a proprietária de um ferro-velho localizado no bairro do Jacintinho, em Maceió, após a apreensão de 105 quilos de fios de cobre com suspeita de origem ilícita. A ação, realizada por equipes da Delegacia de Roubos e Furtos (DRF), integra um esforço mais amplo para desarticular a cadeia criminosa que envolve o furto de cabos de cobre e a receptação desses materiais, crime que tem causado prejuízos milionários a concessionárias de energia e telecomunicações, além de comprometer a prestação de serviços públicos essenciais à população alagoana.
De acordo com o delegado responsável pela operação, a investigação teve início após denúncias anônimas e monitoramento de pontos de venda de sucata na região. Durante a abordagem ao estabelecimento, os agentes encontraram os fios armazenados em condições que indicavam procedência duvidosa, sem documentação fiscal que comprovasse a aquisição legal. A proprietária foi conduzida à sede da DRF, onde foi autuada em flagrante por receptação qualificada, crime previsto no artigo 180 do Código Penal, com pena que pode chegar a oito anos de reclusão. O material apreendido será periciado para identificar possíveis vínculos com furtos recentes registrados em bairros como Jacintinho, Feitosa e Ponta Grossa.
Panorama político e social: o impacto do furto de cabos na segurança pública
O caso ocorre em um contexto de crescente preocupação com a segurança pública em Alagoas, onde o furto de fios de cobre se tornou uma epidemia que afeta diretamente a população. Dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP-AL) indicam que, somente nos primeiros meses de 2025, foram registrados mais de 200 boletins de ocorrência relacionados ao crime, com prejuízos estimados em R$ 5 milhões para empresas do setor elétrico e de telecomunicações. A prática tem deixado bairros inteiros sem iluminação pública, comprometido o funcionamento de semáforos e até mesmo afetado unidades de saúde e delegacias, como mostram reportagens recentes do Portal República do Povo.
A prisão no Jacintinho evidencia a atuação de uma rede organizada de receptação, que envolve desde pequenos ferros-velhos até grandes depósitos clandestinos. Em operações anteriores, a Polícia Civil já havia prendido outros suspeitos, como o dono de um ferro-velho no mesmo bairro, flagrado com grande quantidade de cabos furtados do Complexo de Delegacias de Maceió. A delegada Maria do Socorro, que coordenou a investigação, destacou que o crime não é isolado: “Estamos diante de uma cadeia criminosa bem estruturada, que envolve desde os executores do furto até os receptadores, que muitas vezes atuam com fachada de comércio legal. É preciso uma ação integrada entre as forças de segurança e a fiscalização municipal para coibir essa prática.”
A situação também reflete fragilidades na fiscalização de estabelecimentos comerciais que lidam com sucata e metais. Especialistas apontam que a ausência de um cadastro estadual unificado e a falta de rigor na exigência de notas fiscais facilitam a atuação dos receptadores. Em resposta, a Assembleia Legislativa de Alagoas discute um projeto de lei que obriga ferros-velhos a registrar a origem de todo material adquirido, sob pena de multa e cassação do alvará. A proposta, no entanto, enfrenta resistência de setores do comércio, que alegam burocracia excessiva.
Enquanto isso, a população do Jacintinho e de bairros vizinhos convive com os efeitos diretos do crime. Moradores relatam que a falta de iluminação em ruas e praças tem aumentado a sensação de insegurança, especialmente à noite. “A gente fica com medo de sair de casa porque os postes estão apagados. Já ouvi tiros várias vezes e ninguém faz nada”, desabafou uma comerciante local, que preferiu não se identificar. A Prefeitura de Maceió, por meio da Superintendência de Iluminação Pública, informou que já substituiu mais de 500 metros de cabos furtados neste ano, mas reconhece que a reposição é insuficiente diante da frequência dos roubos.
A prisão da dona do ferro-velho no Jacintinho representa mais um passo no combate à receptação, mas autoridades alertam que a solução do problema exige ações coordenadas e investimentos em tecnologia, como câmeras de monitoramento e sistemas de rastreamento de cabos. Enquanto isso, a Polícia Civil continua as investigações para identificar outros elos da rede criminosa, que pode estar ligada a organizações especializadas em furtos de grande porte. O caso segue sob sigilo, mas a expectativa é de que novas prisões ocorram nos próximos dias.
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