Um alerta de especialista acendeu o debate sobre a segurança nas praias do Nordeste após o ataque de um tubarão-cabeça-chata na praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, no último fim de semana. Segundo o pesquisador Dr. Fábio Nunes, do Laboratório de Ecologia Marinha da UFPE, a espécie pode atacar em apenas 50 centímetros de profundidade, contrariando a crença popular de que águas rasas são seguras. O incidente, que deixou uma vítima ferida, reacendeu a discussão sobre a falta de monitoramento e a necessidade de políticas públicas integradas para a prevenção de acidentes com tubarões no litoral brasileiro.
O ataque ocorreu por volta das 15h30 de sábado, quando a maré estava alta e a água apresentava baixa visibilidade devido à turbidez. O Dr. Fábio Nunes explicou que o tubarão-cabeça-chata (Carcharhinus leucas) é uma das espécies mais agressivas e adaptáveis, capaz de navegar em águas doces e salgadas, e que a profundidade reduzida não representa barreira para seu comportamento predatório. “A água rasa não impede a aproximação. A maré alta e a água turva criaram condições ideais para o ataque, pois o animal confunde movimentos de banhistas com presas naturais”, afirmou o pesquisador em entrevista ao portal Frances News.
Panorama político e ambiental
O caso reacendeu o debate sobre a gestão costeira e a segurança nas praias de Pernambuco, estado que registra o maior número de ataques de tubarão no Brasil, com 65 incidentes desde 1992, segundo dados do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (CEMIT). A situação expõe a fragilidade das políticas de prevenção, que dependem de articulação entre prefeituras, governo estadual e órgãos ambientais como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Em Jaboatão dos Guararapes, a prefeitura informou que mantém sinalização de risco, mas não há sistema de alerta em tempo real ou monitoramento por drones, como pleiteiam especialistas.
O governo de Pernambuco, por meio da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade, anunciou a reativação do Programa de Monitoramento de Tubarões, orçado em R$ 2,5 milhões, que prevê a instalação de boias de alerta e a capacitação de salva-vidas. No entanto, o programa enfrenta atrasos desde 2023, quando foi lançado, e ainda não saiu do papel. A Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes, por sua vez, afirmou que reforçará a sinalização e fará campanhas educativas, mas não detalhou prazos ou investimentos.
O incidente também levanta questões ambientais mais amplas. O Dr. Fábio Nunes destacou que a degradação dos recifes de coral e a poluição costeira têm empurrado os tubarões para áreas mais próximas da costa, aumentando o contato com banhistas. “A perda de habitat natural, combinada com a pesca predatória, força esses animais a buscar alimento em zonas de banho. É um problema que exige ação coordenada entre conservação e segurança pública”, alertou.
Enquanto isso, a vítima do ataque, identificada como João Silva, de 32 anos, permanece internada no Hospital da Restauração, no Recife, com ferimentos na perna direita. Seu estado de saúde é estável, mas ele deverá passar por cirurgia reconstrutiva. A família de João cobra medidas mais efetivas das autoridades e pede que a praia de Piedade seja interditada temporariamente para estudos de risco. A prefeitura, no entanto, descarta a interdição, argumentando que o ataque foi um evento isolado.
O debate sobre a segurança nas praias do Nordeste deve ganhar novos capítulos nos próximos dias, com a expectativa de que o Ministério do Meio Ambiente e o Ministério do Turismo se reúnam para discutir diretrizes nacionais. Enquanto isso, especialistas recomendam que banhistas evitem entrar no mar em horários de maré alta, em águas turvas ou próximos a desembocaduras de rios, onde o tubarão-cabeça-chata é mais comum.
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