Antes mesmo de familiares e amigos, as plataformas digitais provavelmente sabem se você vai casar ou está grávida. Sabem quais tênis serão tendência entre adolescentes. E, segundo a pesquisadora britânica Kaitlyn Regehr, também conseguem identificar quando uma criança apresenta sinais de automutilação ou risco de suicídio. A denúncia, publicada originalmente pela Folha de S.Paulo em 28 de junho de 2026, expõe como as big techs transformam vulnerabilidades emocionais em mercadoria lucrativa, vendendo esses dados a anunciantes e seguradoras sem o conhecimento ou consentimento dos usuários.
O estudo de Kaitlyn Regehr, professora da Universidade de Kent, no Reino Unido, revela que algoritmos de empresas como Meta, Google e TikTok são capazes de detectar mudanças comportamentais sutis — como padrões de sono alterados, buscas por termos relacionados a depressão ou interações em grupos de apoio — e classificar usuários em categorias de risco emocional. Esses dados são então vendidos a terceiros, incluindo seguradoras de saúde, empregadores e plataformas de publicidade direcionada.
Impacto na saúde mental e na privacidade
O alerta de Regehr ganha relevância em um momento em que o debate sobre regulação de big techs avança no Brasil e no mundo. No Congresso Nacional, tramita o Projeto de Lei 2630/2020, conhecido como PL das Fake News, que propõe maior transparência no uso de dados pessoais e responsabilização das plataformas por danos causados por algoritmos. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que a venda de vulnerabilidades emocionais pode agravar crises de saúde pública, especialmente entre jovens, que são os mais expostos a conteúdos que incentivam automutilação e ideação suicida.
“As big techs não apenas coletam dados, mas os utilizam para manipular emoções e comportamentos, criando um ciclo de dependência e exploração”, afirmou Regehr em entrevista. A pesquisadora destaca que, em muitos casos, os próprios pais não sabem que seus filhos estão sendo monitorados por algoritmos que identificam sinais de sofrimento psicológico, e que essas informações são vendidas sem qualquer tipo de intervenção protetiva.
Panorama político e reações
A denúncia de Kaitlyn Regehr ocorre em um contexto de crescente pressão internacional por regulação. Na União Europeia, o AI Act já classifica sistemas de recomendação baseados em dados emocionais como de alto risco, exigindo auditorias independentes. Nos Estados Unidos, a Federal Trade Commission (FTC) investiga práticas semelhantes, enquanto no Brasil, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) abriu consulta pública sobre o uso de dados sensíveis para publicidade comportamental.
Organizações de defesa dos direitos digitais, como o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) e a Coalizão Direitos na Rede, cobram ações mais duras contra a exploração de vulnerabilidades. “Não podemos permitir que o sofrimento humano seja transformado em commodity”, declarou Mariana Rielli, coordenadora do IDEC. “É urgente que o Congresso aprove regras claras que impeçam a venda de dados emocionais sem consentimento informado.”
Enquanto isso, as big techs negam as acusações. Em nota, a Meta afirmou que “segue rigorosamente as leis de proteção de dados” e que “não compartilha informações de saúde mental com anunciantes”. Já o Google disse que “não utiliza dados de vulnerabilidade emocional para segmentação publicitária”. No entanto, Regehr contra-argumenta que os próprios termos de serviço das plataformas permitem a coleta de “interesses e comportamentos”, o que, na prática, inclui indicadores emocionais.
A pesquisadora conclui que, sem uma regulação robusta e independente, as big techs continuarão a explorar e vender nossas vulnerabilidades emocionais, transformando momentos de fragilidade em oportunidades de lucro. “O que está em jogo não é apenas a privacidade, mas a própria saúde mental de milhões de pessoas”, alerta.
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