Bolívia rompe paridade cambial com o dólar após 15 anos em busca de estabilidade econômica

A Bolívia adotará um sistema de câmbio flexível, anunciou o governo nesta sexta-feira (26), desvalorizando efetivamente a moeda ao encerrar uma paridade com o dólar que durava 15 anos, em uma grande mudança de política voltada para restaurar a estabilidade econômica. A decisão, comunicada pelo Executivo boliviano, representa um ponto de inflexão na estratégia monetária do país, que vinha enfrentando pressões inflacionárias e escassez de divisas.

A paridade cambial, mantida desde 2011, atrelava o boliviano ao dólar em uma taxa fixa, o que garantia previsibilidade para investidores e consumidores, mas também limitava a capacidade do Banco Central de reagir a choques externos. Com o agravamento da crise econômica global e a queda nas receitas de exportação de gás natural, a âncora cambial tornou-se insustentável. A desvalorização, embora dolorosa no curto prazo, é vista por analistas como necessária para corrigir desequilíbrios e atrair investimentos.

Impactos imediatos e reações do mercado

A medida já provocou reações nos mercados financeiros. O boliviano registrou queda de cerca de 12% nas primeiras horas após o anúncio, e a expectativa é de que a moeda continue se ajustando nos próximos dias. O governo, por sua vez, afirmou que adotará medidas complementares para conter a inflação, como o controle temporário de preços de alimentos e combustíveis. A decisão também deve impactar as remessas de trabalhadores bolivianos no exterior, que somam cerca de US$ 1,5 bilhão ao ano, e o comércio com países vizinhos, como Brasil e Argentina.

O anúncio ocorre em um contexto de instabilidade política na região. A Bolívia enfrenta uma crise de governabilidade desde as eleições de 2025, com protestos de setores sociais e pressão de grupos empresariais por reformas econômicas. A mudança cambial é a mais recente de uma série de medidas de austeridade implementadas pelo governo, que incluem cortes de subsídios e aumento de impostos. A oposição criticou a decisão, classificando-a como um “fracasso da política econômica”, enquanto o governo defende a medida como “inevitável e necessária para o futuro do país”.

Panorama político e perspectivas

A decisão de encerrar a paridade cambial reflete a fragilidade das economias latino-americanas diante da conjuntura global. Países como Argentina e Venezuela já adotaram regimes de câmbio flexível após crises cambiais severas, e a Bolívia agora segue caminho semelhante. Especialistas apontam que, sem uma política fiscal consistente e reformas estruturais, a desvalorização pode não ser suficiente para garantir a estabilidade. O Fundo Monetário Internacional (FMI), que negocia um pacote de ajuda com o país, saudou a medida como “um passo na direção certa”, mas alertou para a necessidade de ajustes adicionais.

Para a população, os efeitos devem ser sentidos no bolso. A inflação, que já estava em 8,5% ao ano, pode acelerar nos próximos meses, pressionando o poder de compra das famílias. O governo prometeu ampliar programas sociais para mitigar o impacto, mas a eficácia dessas medidas depende da capacidade de arrecadação e do controle fiscal. Enquanto isso, o cenário político segue volátil, com a oposição articulando um pedido de impeachment contra o presidente Luis Arce, que nega qualquer irregularidade e afirma que a medida é técnica, não política.

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