A Câmara dos Deputados aprovou, nesta quarta-feira (27), em dois turnos, a proposta de emenda à Constituição (PEC) que permite o fim da escala 6×1, reduzindo a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais em até 14 meses. A sessão, realizada com plenário esvaziado e votação simbólica, foi marcada por cantorias, troca de acusações e uma tentativa frustrada da oposição de emplacar uma redução ainda maior, para a escala 4×3. O texto, relatado pelo deputado Leo Prates (Republicanos-BA), agora segue para análise do Senado Federal, onde enfrenta um cenário de incertezas e pressão de setores empresariais.
A aprovação ocorreu em meio a um clima de disputa de narrativas entre governo e oposição. Parlamentares da base governista puxaram gritos de “olê olê olá, Lula, Lula” e entoaram o refrão da música “Para não dizer que não falei das flores”, do cantor Geraldo Vandré, em tom de celebração. Do outro lado, deputados do PL e de partidos de oposição tentaram obstruir a votação e, em seguida, apresentaram um destaque para colocar em votação a escala 4×3, nos termos da PEC originalmente proposta pela deputada Erika Hilton (Psol-SP). O destaque, no entanto, foi derrotado por uma manobra regimental articulada pelo governo, que apresentou uma emenda aglutinativa para prejudicar a preferência do PL.
Bate-boca e acusações marcam a sessão
O debate no plenário foi marcado por trocas de farpas entre os deputados André Fernandes (PL-CE) e Erika Hilton. Fernandes subiu à tribuna para criticar a manobra do governo, afirmando que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria “humilhado” a deputada ao impedir a votação do destaque que previa a redução para 4×3. “O deputado Paulo Pimenta, em nome do PT, junto com todo o governo, colocou uma emenda aglutinativa para prejudicar o nosso destaque de preferência, que colocaria em votação a PEC de Erika Hilton, que ela propôs. Ou seja, para votar o 4×3. Está bem caladinha, está pianinha. Humilhada pelo Lula, pelo PT, pelo Psol, pelo PCdoB, pelo governo”, disparou Fernandes.
Erika Hilton rebateu com veemência, classificando a fala do colega como “teatro” e “farsa”. Ela lembrou que a oposição obstruiu a votação do 4×3 em momentos anteriores e acusou o PL de tentar atrapalhar o avanço da proposta. “Se hoje nós estamos votando 5×2 é porque eles [oposição] obstruíram e impediram a votação do 4×3. Aí levaram uma lambada da classe trabalhadora, uma lambada das forças sindicais, uma lambada da sociedade e agora estão fazendo esse teatro, esse papelão, essa farsa. Humilhante é se tornar deputado ensinando na internet a fazer depilação íntima. Isso que é humilhante”, afirmou a deputada, em referência a vídeos antigos publicados por Fernandes nas redes sociais.
Deputado sugere que escala 5×2 estimula natalidade
Em meio ao embate, o deputado Pastor Sargento Isidório (Avante-BA) chamou a atenção ao justificar seu voto favorável à PEC com um argumento inusitado. “A escala 5 por 2, além de melhorar a vida das famílias, vai permitir que os trabalhadores e as trabalhadoras tenham tempo inclusive para ter mais filhos e, portanto, fazer sexo em paz e com mais tranquilidade”, declarou o parlamentar, arrancando risos e reações mistas no plenário.
Panorama político e próximos passos
A aprovação da PEC representa uma vitória do governo Lula e das centrais sindicais, que há anos pressionam pela redução da jornada sem limites de compensação. No entanto, o texto ainda precisa ser aprovado no Senado, onde a correlação de forças é mais conservadora e a resistência de setores empresariais é forte. A proposta, que tramita em regime de urgência, estabelece um prazo de 14 meses para que empresas se adaptem à nova jornada de 40 horas semanais, extinguindo gradualmente a escala 6×1. O governo federal, por meio do Ministério do Trabalho, já sinalizou que deve liberar recursos para apoiar a transição, especialmente em setores como comércio e serviços, que concentram a maior parte dos trabalhadores submetidos à escala 6×1.
Enquanto isso, a oposição, liderada pelo PL, promete intensificar a pressão no Senado para incluir alterações no texto, como a possibilidade de acordos coletivos que permitam jornadas diferenciadas. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), ainda não definiu o cronograma de votação, mas a expectativa é que a matéria seja pautada nas próximas semanas. A tramitação no Senado promete ser tão acirrada quanto na Câmara, com embates entre defensores da redução da jornada e setores que alertam para impactos na produtividade e nos custos das empresas.
Fonte: ver noticia original

