Cientistas identificam bactéria antártica capaz de atacar células de câncer de pele

Uma equipe internacional de cientistas identificou uma bactéria antártica capaz de atacar células de câncer de pele, especificamente o melanoma, em um estudo publicado recentemente. A descoberta, divulgada pelo portal TNH1, aponta que o microrganismo, isolado em amostras coletadas na região da Península Antártica, produz compostos bioativos que inibem o crescimento tumoral em testes laboratoriais. O achado representa um avanço significativo na busca por novas terapias contra um dos tipos mais agressivos de câncer, que afeta milhares de pessoas no Brasil e no mundo.

Os pesquisadores, vinculados a instituições como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), analisaram mais de 200 amostras de solo e gelo marinho coletadas durante expedições à Antártida. A bactéria, pertencente ao gênero Pseudomonas, demonstrou capacidade de secretar moléculas que induzem a apoptose (morte programada) em linhagens celulares de melanoma humano, sem afetar células saudáveis. Os valores monetários envolvidos no projeto, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), somam aproximadamente R$ 2,5 milhões, destinados a equipamentos, logística e bolsas de estudo.

Impacto potencial e panorama político-científico

A descoberta ocorre em um contexto de crescente investimento em bioprospecção na Antártida, região estratégica para o Brasil devido à presença da Estação Antártica Comandante Ferraz. O país mantém, desde 1982, o Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), que coordena pesquisas científicas no continente gelado. No entanto, o orçamento federal para ciência e tecnologia sofreu cortes nos últimos anos, com redução de 23% nos recursos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações em 2023, segundo dados do Observatório do Conhecimento. Especialistas alertam que a continuidade de projetos como este depende de maior estabilidade financeira e de políticas públicas de longo prazo.

A bactéria antártica também levanta questões ambientais: o aquecimento global ameaça ecossistemas únicos, onde microrganismos extremófilos podem desaparecer antes mesmo de serem estudados. Organizações como o Greenpeace e o Instituto Antártico Chileno têm pressionado governos por maior proteção da região, que abriga cerca de 1.500 espécies de bactérias, muitas com potencial biotecnológico. O Tratado da Antártida, assinado por 54 países, incluindo o Brasil, proíbe exploração comercial, mas permite pesquisa científica, o que torna a descoberta um exemplo de como a cooperação internacional pode gerar benefícios globais.

Próximos passos e desafios

Os cientistas agora buscam isolar e purificar os compostos ativos da bactéria para testes pré-clínicos em animais, previstos para 2025. Se bem-sucedidos, os ensaios clínicos em humanos poderão começar em até cinco anos, dependendo de aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). O custo estimado para essa fase é de R$ 10 milhões, valor que ainda não tem fonte garantida. A Associação Brasileira de Câncer de Pele estima que o melanoma atinge 8 mil novos pacientes por ano no país, com taxa de mortalidade de 20% nos casos avançados. A nova terapia, se aprovada, poderia reduzir esses números e diminuir os custos do sistema público de saúde, que gasta cerca de R$ 1,2 bilhão anualmente com tratamentos oncológicos.

Enquanto isso, a comunidade científica aguarda a publicação dos resultados completos em periódico revisado por pares, como Nature Communications ou Science Advances. A descoberta reforça a importância de manter o Brasil na vanguarda da pesquisa polar, mesmo diante de desafios orçamentários e logísticos. Como destacou a coordenadora do estudo, a bióloga Maria Fernanda de Oliveira, em entrevista ao TNH1: “Cada bactéria na Antártida é um tesouro genético que pode conter a chave para curar doenças. Precisamos proteger esse patrimônio antes que o derretimento do gelo o destrua.”

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