Classificação de PCC e CV como terroristas pelos EUA pode gerar impactos econômicos severos no Brasil

Os impactos da classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas, pelos Estados Unidos, ainda não são completamente conhecidos, mas o Brasil pode ser prejudicado economicamente pela medida, segundo pesquisadores e investigadores ouvidos pelo g1. O motivo é que as facções têm utilizado o sistema financeiro nacional para lavar dinheiro — assim como também vem sendo observado em outros países com suas organizações criminosas.

A Carbono Oculto, uma operação da Polícia Federal deflagrada em 2025 e com desdobramentos recentes em 2026, por exemplo, investiga a infiltração do PCC no mercado financeiro e na economia formal. “Como se sabe pelas operações policiais já feitas, a penetração de dinheiro ilegal é muito grande na economia legal. Imagina, por exemplo, um operador de agronegócio que faça negócios com uma transportadora de soja que seja usada para lavar dinheiro do PCC. Esse agroempresário pode ser julgado nos EUA”, diz Thiago Rodrigues, professor de Relações Internacionais na Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Facções criminosas do Brasil no foco dos EUA

Os EUA anunciaram a inclusão do PCC e do CV em duas listas: a de Terroristas Globais Especialmente Designados (“Specially Designated Global Terrorists”, ou SDGTs) e a de Organizações Terroristas Estrangeiras (“Foreign Terrorist Organizations”, ou FTOs). Rodrigues explica que, no caso da inclusão das facções na primeira lista, que já está em vigor, o foco de eventuais ações do governo americano está no combate a operações financeiras realizadas dentro dos EUA. Já a inclusão das facções na segunda lista traz consequências muito mais amplas, segundo Rodrigues, porque ela “projeta a capacidade de os Estados Unidos processarem pessoas de países terceiros que tenham relações com grupos que são listados como terroristas”.

Em outras palavras, “a atividade financeira de um grupo no Brasil pode ser processada nos EUA”, tanto na esfera cível quanto na criminal. “Isso impacta diretamente na economia de um país. Qualquer pessoa, cidadã de outro país, pode ser processada no sistema jurídico-penal dos EUA: um político, uma personalidade pública, um empresário, um banqueiro — mesmo que não esteja fazendo negócio nos EUA, mas esteja fazendo negócio no seu próprio país”, afirma Rodrigues.

A decisão americana reacende o debate sobre soberania nacional e segurança, como já abordado em análises anteriores do Republica do Povo. A classificação de PCC e CV como terroristas pelos EUA gera debate sobre soberania e segurança, e o governo brasileiro mobilizou ministros para avaliar impactos. Especialistas dividem opiniões sobre os riscos à soberania brasileira, enquanto o governo Lula reage defendendo a autonomia nacional. Além disso, há alerta sobre os efeitos na economia, especialmente no setor financeiro e no agronegócio, que podem ser atingidos por sanções indiretas.

O promotor Lincoln Gakiya, referência no combate ao crime organizado, já afirmou que PCC e CV são organizações mafiosas, e não terroristas, mas a medida dos EUA pode ter efeitos práticos que transcendem o debate conceitual. A operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, realizada em 2025 na Avenida Faria Lima, principal centro financeiro do país, em São Paulo, exemplifica a infiltração do crime no mercado formal. A classificação como terroristas pode expor empresas e pessoas físicas a processos nos EUA, mesmo sem qualquer vínculo direto com as facções, gerando incertezas para investidores e para a economia como um todo.

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