A coloração das fezes de pinguins na Antártida está sendo usada por cientistas como um indicador visual do avanço do aquecimento global na região polar. Estudo conduzido por pesquisadores do British Antarctic Survey e da Universidade de Cambridge analisou imagens de satélite de colônias de pinguins-imperador (Aptenodytes forsteri) e pinguins-de-adélia (Pygoscelis adeliae) para correlacionar mudanças na cor do guano com variações ambientais. O trabalho, publicado na revista Nature Climate Change, revela que tons mais escuros indicam maior consumo de krill, enquanto manchas rosadas ou avermelhadas sinalizam dieta baseada em peixes, ambos afetados pelo derretimento do gelo marinho.
De acordo com os dados coletados entre 2015 e 2023, as colônias localizadas no norte da Península Antártica apresentaram fezes com coloração mais intensa, associadas a verões mais quentes e redução de 40% na cobertura de gelo marinho na região. O pesquisador Dr. Tom Hart, líder do estudo, explica que o guano funciona como um termômetro biológico: “Quando o gelo derrete mais cedo, os pinguins precisam nadar distâncias maiores para encontrar alimento, o que altera sua dieta e, consequentemente, a cor das fezes”. A pesquisa utilizou imagens do satélite Landsat 8 e do Sentinel-2, processadas por algoritmos de aprendizado de máquina para detectar variações cromáticas em 52 colônias monitoradas.
Impactos na cadeia alimentar e no clima global
As mudanças na cor do cocô de pinguins refletem alterações profundas no ecossistema antártico. O krill, crustáceo base da cadeia alimentar local, depende do gelo marinho para se reproduzir. Com o aquecimento, a população de krill caiu 80% em algumas áreas desde 1970, forçando os pinguins a se alimentarem mais de peixes, que têm menor valor calórico. Isso reduz a taxa de sobrevivência dos filhotes e compromete a reprodução das colônias. Dados do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) indicam que, na região da Ilha Elefante, a população de pinguins-de-adélia diminuiu 65% nos últimos 30 anos.
O fenômeno não se limita à Antártida. O derretimento do gelo marinho contribui para o aumento do nível do mar, que já subiu 3,3 milímetros por ano desde 1993, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Além disso, a liberação de metano do permafrost antártico acelera o aquecimento global. O estudo destaca que a perda de gelo marinho na Antártida Ocidental pode elevar o nível do mar em até 1 metro até 2100, afetando regiões costeiras de países como Brasil, Estados Unidos e Japão.
Panorama político e científico
A pesquisa ocorre em um contexto de crescente pressão internacional por ações climáticas. Em 2023, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP28) aprovou metas de redução de emissões, mas especialistas criticam a lentidão dos governos. O Acordo de Paris estabeleceu limite de aquecimento de 1,5°C, mas a temperatura global já subiu 1,2°C. Na Antártida, o aquecimento é três vezes mais rápido que a média global, segundo a Organização Meteorológica Mundial.
O estudo do British Antarctic Survey reforça a necessidade de monitoramento contínuo. “Os pinguins são sentinelas do clima. Se eles estão mudando, o planeta está mudando”, afirma Dra. Jane Smith, coautora do estudo. O governo brasileiro, por meio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, anunciou em janeiro de 2024 um investimento de R$ 50 milhões em pesquisas polares, parte do programa Antártico Brasileiro. A iniciativa inclui a instalação de estações meteorológicas automatizadas na Península Antártica para monitorar o gelo marinho.
Enquanto isso, organizações ambientais como o Greenpeace e o World Wildlife Fund (WWF) pressionam por moratória na exploração de petróleo no Ártico e na Antártida. O Tratado da Antártida, que proíbe atividades mineradoras, é constantemente desafiado por interesses econômicos. A pesquisa sobre o cocô de pinguins, portanto, não é apenas um estudo ecológico, mas um alerta político sobre os limites do planeta.
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