Com tarifa de 25% dos EUA e déficit fiscal crescente, Brasil chega à eleição de 2026 sem margem para erro, alerta analista Ruchir Sharma

Poucos analistas têm acompanhado a ascensão e queda das nações com a profundidade de Ruchir Sharma. Estrategista global, gestor de recursos e estudioso dos ciclos econômicos que definem o destino dos países, ele é chairman da Rockefeller International, fundador da Breakout Capital e colunista do Financial Times. Autor de obras como Breakout Nations e What Went Wrong With Capitalism, Sharma combina análise macroeconômica com observação direta de campo em países emergentes — uma metodologia construída ao longo de três décadas. Sua tese central sobre a América Latina parte de um dado que ele considera inconveniente, mas inegável: historicamente, investidores obtêm retornos muito maiores sob governos de direita na região. É essa dinâmica que explica, em grande parte, o bom desempenho dos mercados latino-americanos nos últimos anos. E é por isso que o Brasil, para Sharma, é a grande incógnita de 2026 — talvez a eleição mais importante do ano no mundo inteiro.

O cenário ficou ainda mais carregado com a decisão do governo de Donald Trump de impor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Se a medida entrar em vigor no dia 22 de julho, o Brasil se tornará o segundo país mais taxado pelos Estados Unidos no planeta, atrás apenas da China. Para Sharma, o impacto direto da medida é mais limitado do que o número sugere, mas seus efeitos sobre o investimento estrangeiro e, sobretudo, sobre o tabuleiro eleitoral de outubro, são mais complexos de calcular.

Impacto da tarifa e riscos para o investimento

Em entrevista à BBC News Brasil, Sharma detalhou que a tarifa de 25% incide sobre produtos que somam cerca de US$ 14,9 bilhões em exportações brasileiras. Consideradas as isenções — pela Seção 232 e outras —, o impacto efetivo é mais estreito do que o número sugere. Em termos diretos, o efeito é limitado. O risco maior, segundo ele, é de segunda ordem: o impacto sobre o investimento estrangeiro direto e o fato de que esta é a segunda tentativa de Trump de usar tarifas como alavancagem sobre o Brasil em 13 meses. Isso sinaliza que a relação está estruturalmente contestada por este governo americano, não se trata de uma disputa isolada.

Panorama político e fiscal no Brasil

O analista também destacou que o Brasil chega à eleição de 2026 com um déficit fiscal crescente, o que reduz a margem para erros de política econômica. A combinação de pressão externa — com a tarifa americana — e fragilidade interna coloca o país em uma posição delicada. Sharma abordou ainda o risco fiscal sob Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL), a fragilidade estrutural da China, a bolha de inteligência artificial e o impacto das guerras no Oriente Médio e na Ucrânia sobre a economia global. Para ele, a eleição brasileira de outubro será a mais importante do mundo em 2026, com desdobramentos que vão além das fronteiras nacionais.

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