A Comissão de Inquérito instaurada pela Corregedoria da Polícia Militar de Alagoas indiciou formalmente um policial militar por homicídio doloso qualificado contra dois colegas de farda, mortos a tiros dentro de uma viatura oficial no município de Delmiro Gouveia, no Sertão alagoano. O relatório final, divulgado nesta quinta-feira (26), descartou a hipótese de premeditação, mas confirmou a autoria dos disparos e apontou o consumo excessivo de álcool como fator determinante para o crime, que abalou a corporação e a comunidade local.
De acordo com o documento, ao qual a reportagem teve acesso, os três policiais estavam em serviço na madrugada do dia 12 de junho, quando o indiciado, identificado como cabo João Batista da Silva, teria iniciado uma discussão com os colegas soldado Carlos Eduardo de Oliveira e soldado Marcos Antônio dos Santos. Após o desentendimento, o cabo sacou a arma e efetuou os disparos, que atingiram ambos na cabeça e no tórax. As vítimas morreram no local, dentro da viatura estacionada em uma rua do bairro Centro.
A investigação, que durou 14 dias, ouviu testemunhas, analisou imagens de câmeras de segurança e realizou perícia toxicológica no indiciado. O laudo apontou que o cabo apresentava nível de álcool no sangue equivalente a 0,8 gramas por litro, considerado alto para os padrões legais. A comissão concluiu que o consumo de bebidas alcoólicas durante o expediente, embora não autorizado, era uma prática recorrente entre os três policiais, o que teria contribuído para o descontrole emocional do autor.
O caso reacende o debate sobre as condições de trabalho e a saúde mental dos agentes de segurança pública em Alagoas, estado que registra uma das maiores taxas de letalidade policial do país. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que, em 2025, ao menos 12 policiais militares morreram em confrontos ou em circunstâncias violentas no estado, sendo que três desses casos envolveram colegas de corporação. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que a falta de acompanhamento psicológico, a jornada exaustiva e o fácil acesso a armas de fogo são fatores que aumentam o risco de tragédias como essa.
O indiciado, que está preso preventivamente no Batalhão de Polícia Militar de Delmiro Gouveia, responderá por homicídio doloso qualificado, com pena que pode chegar a 30 anos de reclusão. A defesa do cabo, por meio de nota, afirmou que ele agiu em legítima defesa, mas a comissão rejeitou a tese, destacando que as vítimas estavam desarmadas no momento dos disparos. O Ministério Público Estadual deve oferecer denúncia nos próximos dias.
O crime gerou comoção em Delmiro Gouveia, cidade de cerca de 50 mil habitantes, onde os policiais eram conhecidos e respeitados. A Associação dos Policiais Militares de Alagoas emitiu nota de pesar e cobrou medidas para evitar novos episódios, como a implementação de programas de saúde mental e a fiscalização rigorosa do consumo de álcool durante o serviço. A Secretaria de Segurança Pública de Alagoas informou que abrirá sindicância para apurar possíveis falhas na supervisão da equipe.
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