Compradores globais aguardam safra recorde de café do Brasil, mas produtores seguram vendas e mantêm oferta global sob pressão

Comerciantes de café apostam que a safra recorde do Brasil aliviará a crise de oferta global, mas os agricultores do maior produtor mundial não têm pressa em vender os grãos, reduzindo a oferta nos países consumidores e mantendo a pressão sobre os preços internacionais. A expectativa de uma colheita histórica, estimada em mais de 60 milhões de sacas, contrasta com a estratégia dos produtores brasileiros, que preferem aguardar melhores cotações antes de fechar negócios, segundo informações da Folha de S.Paulo.

O cenário revela um impasse no mercado global de café: de um lado, compradores internacionais, especialmente da Europa e dos Estados Unidos, contam com a entrada da safra brasileira para recompor estoques e conter a alta dos preços. Do outro, os cafeicultores do Brasil, que enfrentaram custos elevados com insumos e logística nos últimos anos, optam por armazenar a produção, na esperança de que a demanda aquecida e a oferta restrita de outros países, como Vietnã e Colômbia, elevem ainda mais as cotações.

Impactos na cadeia global

A decisão dos produtores brasileiros de segurar as vendas já gera reflexos nos mercados futuros, com os contratos de café arábica registrando alta de 12% nos últimos dois meses, segundo dados da Bolsa de Nova York. A oferta global de café enfrenta uma crise desde 2024, agravada por eventos climáticos extremos, como secas no Vietnã e geadas na Colômbia, que reduziram a produção mundial em cerca de 8% no último ciclo. O Brasil, que responde por aproximadamente 35% da produção global, surge como a principal esperança de reequilíbrio, mas a postura dos agricultores brasileiros adia esse alívio.

Para os consumidores finais, a tendência é de manutenção dos preços elevados nas gôndolas dos supermercados e nas cafeterias. No Brasil, o preço médio do café torrado e moído subiu 18% nos primeiros seis meses de 2026, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC). A torrefação nacional também enfrenta dificuldades para repassar integralmente os custos, já que o consumidor brasileiro reduz o consumo diante da inflação.

Panorama político e econômico

O impasse no mercado cafeeiro ocorre em um contexto de incertezas políticas e econômicas no Brasil e no mundo. O governo federal, por meio do Ministério da Agricultura, anunciou linhas de crédito especiais para a estocagem de café, com juros subsidiados, como forma de apoiar os produtores e evitar uma pressão baixista sobre os preços. A medida, no entanto, é criticada por associações de exportadores, que temem que a retenção da safra prejudique a participação do Brasil no mercado internacional e abra espaço para concorrentes como a Colômbia e o Vietnã.

No cenário externo, a guerra comercial entre Estados Unidos e China, que elevou tarifas sobre produtos agrícolas, e a desaceleração econômica na Europa, principal mercado consumidor de café arábica, adicionam camadas de complexidade. A valorização do dólar frente ao real, que já ultrapassa os 5,80 reais, também influencia a decisão dos produtores brasileiros, que recebem em moeda americana e preferem aguardar uma cotação ainda mais favorável.

Especialistas do setor, como o analista de mercado da Safras & Mercado, Gilberto Barabach, avaliam que a estratégia de retenção pode ser arriscada. “Se a safra realmente for colhida em volume recorde e a qualidade for boa, o mercado pode se ajustar rapidamente, e quem segurou pode perder a oportunidade de vender a preços atrativos”, afirmou Barabach, em entrevista à Folha. Por outro lado, a consultoria StoneX projeta que os preços do café devem permanecer elevados até o início de 2027, devido à oferta global ainda restrita.

A expectativa é que as negociações se intensifiquem a partir de agosto, quando a colheita da safra 2026/2027 estiver concluída e os estoques brasileiros estiverem mais claros. Até lá, o mercado global de café continuará refém da paciência dos produtores brasileiros e da capacidade dos compradores de esperar por um alívio que ainda não chegou.

Fonte: ver noticia original

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *