O estado de Alagoas enfrenta um aumento preocupante no número de suicídios, com impacto direto sobre homens e profissionais da segurança pública, revela análise da psicoterapeuta Daniella Souza. Em entrevista ao portal Frances News, a especialista destacou que fatores culturais, como a pressão social para que homens não expressem vulnerabilidade, aliados à ausência de espaços seguros para acolhimento emocional, explicam a prevalência dos casos. O fenômeno, que já mobiliza a Secretaria de Estado da Saúde, acende um alerta sobre a necessidade de políticas públicas integradas de saúde mental.
De acordo com Daniella Souza, o perfil das vítimas revela um padrão: homens entre 30 e 50 anos, muitos deles agentes das polícias Militar e Civil, além de bombeiros e guardas municipais. “O estresse crônico gerado pela rotina de trabalho, a exposição constante a situações de violência e a falta de canais adequados para desabafar criam um caldo de cultura propício para o sofrimento psíquico”, explicou a psicoterapeuta. Dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) indicam que, somente no primeiro semestre de 2025, o número de suicídios em Alagoas cresceu 18% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Pressão institucional e silêncio masculino
O cenário não se restringe a Alagoas. Em todo o Brasil, a taxa de suicídio entre homens é quatro vezes maior do que entre mulheres, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Em Alagoas, a situação é agravada pela cultura local de masculinidade rígida, que desencoraja a busca por ajuda psicológica. “Homens são ensinados a resolver problemas sozinhos e a não demonstrar fraqueza. Isso os leva a um isolamento emocional perigoso”, afirmou Daniella Souza. Entre os agentes de segurança, a pressão é ainda maior: o medo de serem considerados “fracos” ou de sofrerem represálias institucionais os impede de procurar tratamento.
A psicoterapeuta também apontou a falta de espaços seguros dentro das corporações como um fator crítico. “As ouvidorias e os serviços de psicologia existem, mas são subutilizados por falta de sigilo efetivo e de uma cultura de acolhimento. Muitos agentes relatam que, se procurarem ajuda, podem ser afastados do serviço ou perder oportunidades de promoção”, detalhou. A situação levou a Associação dos Praças da Polícia Militar de Alagoas a solicitar uma audiência pública com o governo estadual para discutir a criação de um programa de saúde mental específico para a categoria.
Panorama político e desafios institucionais
O aumento dos suicídios ocorre em um contexto de crise orçamentária no estado. Em 2024, o governo de Alagoas cortou 30% dos recursos destinados à saúde mental, segundo dados do Conselho Estadual de Saúde. A medida afetou diretamente o funcionamento dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que registraram filas de espera de até seis meses para atendimento. “A falta de investimento em prevenção é um erro que custa vidas”, criticou Daniella Souza. A deputada estadual Fátima Canuto (PSB) apresentou um projeto de lei que obriga a criação de núcleos de acolhimento psicológico em todas as delegacias e quartéis do estado, mas a proposta ainda tramita na Assembleia Legislativa.
Enquanto isso, entidades da sociedade civil, como o Movimento pela Vida Alagoas, têm promovido campanhas de conscientização e rodas de conversa em comunidades e batalhões. “O silêncio mata. Precisamos normalizar o cuidado com a saúde mental, especialmente entre homens e profissionais da segurança”, afirmou a coordenadora do movimento, Lúcia Mendes. A Secretaria de Estado da Segurança Pública informou, em nota, que está elaborando um protocolo de atendimento psicológico emergencial para agentes, mas não detalhou prazos ou orçamento previsto.
O caso de Alagoas reflete uma tendência nacional que preocupa especialistas. Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre 2010 e 2024, o Brasil registrou um aumento de 35% na taxa de suicídios, com maior concentração nas regiões Norte e Nordeste. Para Daniella Souza, a solução passa por uma mudança cultural e política. “Não adianta apenas criar serviços se a sociedade não permitir que as pessoas os utilizem sem medo ou vergonha. É preciso desconstruir o estigma e garantir que o cuidado emocional seja um direito, não um privilégio”, concluiu.
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