Déficit primário de R$ 56,1 bilhões em maio eleva dívida pública ao maior patamar em cinco anos e acende alerta fiscal

As contas do setor público consolidado apresentaram um déficit primário de R$ 56,1 bilhões em maio de 2026, informou o Banco Central (BC) nesta terça-feira (30). O resultado representa uma forte piora em relação ao mesmo mês de 2025, quando o saldo negativo foi de R$ 33,7 bilhões. O déficit primário ocorre quando as receitas com tributos e impostos ficam abaixo das despesas do governo, sem considerar o pagamento dos juros da dívida pública. O levantamento abrange o governo federal, estados, municípios e empresas estatais.

No detalhamento por esfera, o governo federal registrou saldo negativo de R$ 55,2 bilhões; estados e municípios tiveram déficit de R$ 1,2 bilhão; e as empresas estatais apresentaram superávit de R$ 273 milhões. No acumulado dos cinco primeiros meses de 2026, o déficit primário totalizou R$ 24,9 bilhões, o equivalente a 0,45% do Produto Interno Bruto (PIB). Na comparação com o mesmo período de 2025, quando houve superávit de R$ 69,1 bilhões (1,34% do PIB), a piora é expressiva e está associada, entre outros fatores, à antecipação no pagamento de precatórios pela Secretaria do Tesouro Nacional.

Meta fiscal sob pressão e dívida pública em alta

Para 2026, a meta fiscal estabelecida pelo arcabouço aprovado em 2023 prevê um déficit de 0,25% do PIB, cerca de R$ 34,3 bilhões, com intervalo de tolerância de 0,25 ponto percentual. Isso significa que a meta será considerada cumprida se o saldo for zero ou se houver superávit de até R$ 68,6 bilhões. O governo pode ainda excluir do cálculo até R$ 63,5 bilhões em despesas com precatórios, defesa e educação. No entanto, o resultado já acumulado nos primeiros cinco meses – déficit de R$ 24,9 bilhões – indica que o cumprimento da meta exigirá forte contenção de gastos no segundo semestre.

Quando se incorporam os juros da dívida pública, o resultado nominal – utilizado para comparações internacionais – registrou déficit de R$ 163,7 bilhões em maio. No acumulado em 12 meses até maio, o saldo negativo nominal atingiu R$ 1,26 trilhão, ou 9,62% do PIB. Esse indicador é acompanhado com atenção por agências de classificação de risco e investidores internacionais, pois reflete a capacidade de pagamento do país. A dívida bruta do governo geral subiu para 81,1% do PIB, o maior nível em cinco anos, ampliando a percepção de fragilidade fiscal.

Panorama político e econômico: tensão entre ajuste e gastos obrigatórios

O agravamento das contas públicas ocorre em meio a um cenário de pressão política e econômica. O governo enfrenta dificuldades para conciliar o cumprimento da meta fiscal com o aumento de despesas obrigatórias, como precatórios e benefícios previdenciários. A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de liberar o pagamento de penduricalhos retroativos a juízes e membros do Ministério Público, com impacto fiscal imediato, adiciona mais pressão sobre o orçamento. Paralelamente, o custo do MEI gera rombo bilionário na Previdência, enquanto o governo prorroga a cota de importação de carros elétricos com isenção total de imposto por seis meses, medida que reduz a arrecadação federal.

No mercado financeiro, o dólar disparou e atingiu nova máxima após a ata do Copom sinalizar aperto monetário prolongado, elevando o custo da dívida e pressionando ainda mais as contas públicas. O déficit primário de R$ 53,3 bilhões registrado em maio expõe a fragilidade fiscal e acende alerta no governo, que precisa demonstrar responsabilidade para evitar rebaixamento da nota de crédito e fuga de investidores. A combinação de juros altos, despesas obrigatórias crescentes e receitas insuficientes coloca o país em uma encruzilhada fiscal, com impacto direto sobre a inflação, o emprego e o crescimento econômico.

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