Deolane Bezerra e Marcola são indiciados por lavagem de dinheiro ligada ao PCC em operação da Polícia Civil de São Paulo

A Polícia Civil de São Paulo indiciou a influenciadora digital Deolane Bezerra e o líder do Primeiro Comando da Capital (PCC), Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, por lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio, em uma operação que expõe as conexões financeiras entre o crime organizado e o mundo do entretenimento. O inquérito, concluído nesta terça-feira (26), aponta que os investigados movimentaram valores milionários por meio de empresas de fachada, imóveis e contas bancárias no exterior, com o objetivo de dissimular a origem ilícita dos recursos. A ação, que durou mais de seis meses, envolveu 12 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco, e revelou um esquema que teria desviado ao menos R$ 50 milhões dos cofres públicos e do tráfico de drogas.

Segundo o delegado Carlos Henrique de Oliveira, titular da Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros (DRCF), as investigações começaram após a quebra de sigilo bancário de Deolane Bezerra, que apresentava incompatibilidade entre sua renda declarada e o patrimônio acumulado. “Identificamos que a influenciadora, que ganhou notoriedade nas redes sociais, mantinha vínculos financeiros diretos com Marcola, utilizando empresas de fachada para movimentar recursos do PCC”, afirmou Oliveira. A polícia descobriu que, entre 2022 e 2025, Deolane recebeu transferências de ao menos R$ 12 milhões de contas ligadas a Marcola, além de ter adquirido imóveis de luxo em São Paulo e no Rio de Janeiro, avaliados em R$ 8 milhões, sem comprovação de origem lícita.

Esquema de ocultação e conexões políticas

O esquema, segundo a polícia, envolvia a criação de empresas de fachada nos ramos de moda e entretenimento, que emitiam notas fiscais falsas para justificar os repasses. Marcola, que cumpre pena em regime fechado na Penitenciária Federal de Brasília, teria utilizado a influenciadora como laranja para lavar dinheiro do tráfico de drogas e de outras atividades criminosas do PCC. A investigação também apontou que parte dos recursos era destinada a campanhas políticas de candidatos aliados à facção, embora os nomes não tenham sido divulgados. “Há indícios de que o PCC financiava candidaturas para obter proteção e influência em órgãos públicos”, destacou o promotor Rafael de Almeida, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO).

O caso ganhou repercussão nacional por envolver uma figura pública como Deolane Bezerra, que possui milhões de seguidores nas redes sociais e já participou de reality shows. A defesa da influenciadora, em nota, negou as acusações e afirmou que “todos os bens foram adquiridos com recursos lícitos, provenientes de contratos publicitários e eventos”. Já a defesa de Marcola não se manifestou até o fechamento desta edição. A operação também mirou outros três suspeitos, incluindo um empresário do setor de construção civil e um contador, que teriam auxiliado na ocultação dos ativos.

O panorama político geral é marcado por um aumento da atuação do PCC em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco, onde a facção tem expandido seus negócios ilegais, incluindo lavagem de dinheiro e corrupção de agentes públicos. Especialistas apontam que o caso Deolane Bezerra e Marcola expõe a fragilidade dos mecanismos de controle financeiro no Brasil, que permitem que pessoas com alto poder econômico e influência social atuem como intermediárias do crime organizado. “A lavagem de dinheiro é o coração do crime organizado, e casos como este mostram como o PCC utiliza pessoas comuns para legitimar seus lucros”, analisou o cientista político Luis Felipe da Silva, da Universidade de São Paulo (USP).

O Ministério Público de São Paulo deve denunciar os indiciados nos próximos dias, e a Justiça pode decretar a prisão preventiva de Deolane Bezerra, que atualmente está em liberdade. A operação também gerou reações no meio político, com parlamentares de oposição cobrando uma investigação mais ampla sobre o financiamento de campanhas pelo crime organizado. O governo estadual, por meio da Secretaria de Segurança Pública, afirmou que “reforçará as ações de inteligência financeira para combater a lavagem de dinheiro”.

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