Equações no quadro: governador de São Paulo aposta na matemática para conquistar jovens eleitores

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tem adotado uma abordagem inusitada para se conectar com o eleitorado jovem: a matemática. Em eventos públicos e publicações nas redes sociais, o chefe do Executivo paulista tem preenchido lousas com equações e fórmulas, buscando dialogar com um segmento que, historicamente, se mostra mais crítico e disperso em relação à política tradicional. A estratégia, revelada em reportagem da Folha de S.Paulo publicada em 21 de junho de 2026, ocorre em um momento de intensa disputa pela atenção dos jovens, que representam cerca de 30% do eleitorado nacional e têm mostrado preferência por candidatos com perfil mais inovador e conectado com temas como tecnologia e educação.

A iniciativa de Tarcísio de Freitas não se limita a um único evento. Em maio, durante uma visita a uma escola técnica da capital paulista, o governador passou 15 minutos resolvendo problemas de álgebra e geometria no quadro, sob o olhar atento de estudantes e professores. Em outra ocasião, em um encontro com jovens empreendedores, ele usou equações para explicar conceitos de juros compostos e crescimento exponencial, relacionando-os a investimentos e carreiras. As ações foram registradas em vídeos e fotos que rapidamente viralizaram nas plataformas digitais, gerando tanto elogios quanto críticas. Enquanto alguns veem na abordagem uma forma de valorizar a educação e a ciência, outros questionam se a estratégia não seria uma tentativa superficial de agradar um público que demanda propostas concretas para áreas como emprego, moradia e acesso à universidade.

Contexto político e desafios

A aposta na matemática ocorre em um cenário de queda na aprovação do governo estadual entre os jovens, segundo pesquisas internas do Republicanos. Dados do Datafolha de maio de 2026 indicam que apenas 38% dos eleitores de 16 a 24 anos aprovam a gestão de Tarcísio de Freitas, uma redução de 12 pontos percentuais em relação ao mesmo período de 2025. Paralelamente, o governador enfrenta a concorrência de pré-candidatos à Presidência da República que também miram o eleitorado jovem, como Guilherme Boulos (PSOL) e Tabata Amaral (PSB), ambos com forte atuação em pautas educacionais e tecnológicas. A estratégia matemática, portanto, pode ser lida como uma tentativa de reposicionamento, buscando associar a imagem do governador a valores como racionalidade, inovação e meritocracia, caros a parte do eleitorado jovem de classe média e alta.

Especialistas em comunicação política apontam que a iniciativa tem limites. “A matemática é uma linguagem universal, mas não substitui a necessidade de propostas claras para os problemas reais dos jovens, como a precarização do trabalho e o alto custo de vida”, avalia a cientista política Luciana Teixeira, da USP. Para ela, a ação pode gerar engajamento imediato nas redes, mas corre o risco de ser vista como uma “jogada de marketing” se não vier acompanhada de políticas públicas efetivas. Por outro lado, o governador tem investido em outras frentes para dialogar com o público jovem, como a ampliação de vagas em cursos técnicos e a criação de um programa de estágio remunerado em órgãos estaduais, medidas que, segundo sua equipe, já beneficiaram mais de 50 mil jovens desde o início do ano.

Repercussão e perspectivas

A repercussão da estratégia matemática foi imediata. Nas redes sociais, a hashtag #TarcisioMatematico chegou aos trending topics do Twitter (atual X) por duas horas consecutivas, com mais de 200 mil menções. Enquanto apoiadores exaltavam a “inteligência” do governador, críticos ironizavam a ação, comparando-a a uma “aula particular” para um público que, na prática, enfrenta dificuldades com o ensino público de matemática no estado. Dados do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) de 2025 mostram que apenas 34% dos alunos do 9º ano do ensino fundamental têm aprendizado adequado em matemática, um índice que cai para 28% no ensino médio. A contradição entre a imagem de governante que domina a matéria e a realidade do ensino no estado não passou despercebida por especialistas e oposição.

O deputado estadual Eduardo Suplicy (PT) afirmou, em nota, que “enquanto o governador brinca de professor, as escolas públicas paulistas enfrentam falta de professores de matemática e infraestrutura precária”. Já o secretário estadual de Educação, Renato Feder, defendeu a iniciativa, dizendo que “o governador dá o exemplo, mostrando que a matemática é importante e pode ser divertida”. A polêmica deve se intensificar nos próximos meses, à medida que as eleições de 2026 se aproximam e o eleitorado jovem se torna alvo de disputa entre os principais candidatos. Enquanto isso, Tarcísio de Freitas segue enchendo lousas de equações, na esperança de que os números se traduzam em votos.

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