Estudo da Nature expõe falhas no protocolo de hidratação da Fifa durante a Copa

Uma análise publicada pela renomada revista Nature coloca em xeque o protocolo de pausas para hidratação adotado pela Fifa durante a Copa do Mundo, apontando que, embora as interrupções sejam cientificamente válidas, elas falham ao não priorizar o resfriamento dos atletas em situações de calor extremo. O estudo, divulgado em 26 de julho de 2026, levanta questões críticas sobre a segurança dos jogadores em um contexto de mudanças climáticas e eventos esportivos cada vez mais expostos a temperaturas elevadas.

A pesquisa, conduzida por especialistas em fisiologia do exercício e saúde pública, analisou as condições térmicas durante partidas da Copa e concluiu que as pausas para hidratação, conhecidas como ‘cooling breaks’, são insuficientes para reduzir a temperatura corporal central dos atletas. Segundo os autores, o protocolo atual da Fifa se concentra na reposição de líquidos, mas negligencia estratégias de resfriamento ativo, como o uso de toalhas geladas, ventilação ou imersão em água fria, que são essenciais para prevenir golpes de calor e outros problemas relacionados ao estresse térmico.

Impacto no desempenho e na saúde dos atletas

O estudo destaca que, em partidas realizadas sob temperaturas acima de 32°C, como as registradas em algumas sedes da Copa, os jogadores podem sofrer uma queda significativa no desempenho físico e cognitivo. Dados da Nature mostram que a taxa de lesões musculares aumenta em até 40% em condições de calor extremo, e que a desidratação, mesmo leve, pode comprometer a tomada de decisões em campo. ‘As pausas atuais são um paliativo, não uma solução’, afirmam os pesquisadores, que recomendam a implementação de intervalos mais longos e a inclusão de métodos de resfriamento obrigatórios.

A crítica ganha relevância em um momento em que a Fifa enfrenta pressões de sindicatos de jogadores e entidades médicas para revisar seus protocolos. Em 2025, a Federação Internacional das Associações de Futebolistas Profissionais (FIFPro) já havia alertado para os riscos do calendário apertado e das condições climáticas adversas, especialmente em torneios realizados em regiões tropicais ou durante o verão no hemisfério norte.

Panorama político e regulatório

O debate sobre as pausas para hidratação insere-se em um contexto mais amplo de governança esportiva e responsabilidade das federações internacionais. A Fifa, que arrecadou bilhões de dólares com a última Copa, é frequentemente criticada por priorizar interesses comerciais em detrimento da saúde dos atletas. Organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Agência Mundial Antidoping (WADA) têm defendido a criação de padrões globais para a segurança térmica em eventos esportivos, mas até agora não houve avanços concretos.

No Brasil, país que sediou a Copa de 2014 e enfrenta ondas de calor recorrentes, o estudo reacende o debate sobre a preparação de estádios e a adoção de medidas preventivas. Especialistas em medicina esportiva consultados pelo Republica do Povo apontam que a falta de regulamentação específica para calor extremo é uma lacuna que expõe atletas amadores e profissionais a riscos desnecessários. ‘Precisamos de um protocolo que vá além da hidratação, com monitoramento contínuo da temperatura e ações imediatas de resfriamento’, afirma o fisiologista Carlos Mendes, da Universidade de São Paulo (USP).

A Fifa, por sua vez, defende que seu protocolo segue as diretrizes da Associação Médica Internacional de Futebol (F-MARC) e que as pausas são ajustadas conforme as condições climáticas de cada partida. No entanto, a análise da Nature sugere que a entidade precisa revisar suas práticas com urgência, especialmente diante das projeções de aumento da temperatura global. O estudo conclui que, sem mudanças, o futebol profissional pode se tornar insustentável em várias regiões do mundo durante os meses de verão.

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