Fragmentos de pepinos-do-mar viram ‘zumbis’ e acendem alerta sobre colapso ecológico nos oceanos

Fragmentos de pepinos-do-mar que continuam se movendo e se alimentando mesmo após serem cortados foram apelidados de ‘zumbis’ por cientistas, em uma descoberta que expõe a resiliência biológica extrema desses organismos e acende um alerta sobre os impactos da degradação ambiental nos oceanos. O fenômeno, documentado por pesquisadores do Instituto de Biologia Marinha e da Universidade Federal do Rio de Janeiro, revela que partes do corpo desses equinodermos podem sobreviver de forma autônoma por dias, alterando a dinâmica de predação e decomposição nos fundos marinhos.

Os pepinos-do-mar, conhecidos cientificamente como holotúrias, são animais marinhos que desempenham papel crucial na reciclagem de nutrientes e na oxigenação do sedimento oceânico. A capacidade de regeneração já era conhecida, mas a descoberta de que fragmentos isolados — sem cérebro ou sistema nervoso central — mantêm movimentos coordenados e até mesmo se alimentam surpreendeu a comunidade científica. ‘É como se cada pedaço se tornasse um organismo independente, um zumbi ecológico’, explicou a bióloga Ana Paula Silva, coordenadora do estudo.

Impactos na cadeia alimentar e no equilíbrio ecológico

O comportamento ‘zumbi’ dos fragmentos pode ter consequências diretas na cadeia alimentar marinha. Ao continuarem se movendo, esses pedaços atraem predadores como estrelas-do-mar e caranguejos, que passam a consumir partes vivas em vez de matéria orgânica morta. Isso altera o fluxo de energia no ecossistema, reduzindo a disponibilidade de detritos para organismos decompositores e aumentando a pressão sobre espécies já ameaçadas. ‘Estamos vendo uma reconfiguração das relações de predação, o que pode levar a desequilíbrios regionais’, alertou o oceanógrafo Carlos Mendes, coautor do artigo publicado na revista Marine Biology.

Além disso, a resiliência extrema dos pepinos-do-mar levanta questões sobre a capacidade de adaptação de espécies em ambientes degradados. Com o aumento da poluição, da acidificação dos oceanos e da sobrepesca, organismos como esses podem se tornar dominantes, deslocando espécies menos tolerantes. ‘O fenômeno dos zumbis é um sinal de que a vida marinha está se adaptando a condições extremas, mas isso nem sempre é positivo para a biodiversidade’, ponderou Fernanda Oliveira, especialista em ecologia marinha da Universidade de São Paulo.

Panorama político e científico: o alerta que ecoa em Brasília

A descoberta ocorre em um momento de intenso debate sobre a preservação dos oceanos no Brasil. O governo federal, por meio do Ministério do Meio Ambiente, anunciou recentemente a ampliação de áreas de proteção marinha na costa brasileira, mas especialistas criticam a lentidão na implementação de medidas contra a poluição por plásticos e o descarte de resíduos químicos. ‘Enquanto cientistas revelam fenômenos como esse, o Congresso Nacional discute a flexibilização de licenças ambientais para exploração de petróleo e gás’, criticou o deputado Ricardo Gomes, da Comissão de Meio Ambiente.

Organizações não governamentais, como o Greenpeace Brasil e a WWF, já usaram a descoberta para pressionar por políticas mais rigorosas de proteção costeira. ‘Os pepinos-do-mar zumbis são um lembrete de que a vida marinha está sob estresse extremo. Precisamos de ações urgentes, como a redução de emissões de carbono e o combate à pesca predatória’, afirmou Lúcia Santos, coordenadora de campanhas do Greenpeace.

Enquanto isso, a comunidade científica segue investigando se o fenômeno pode ser replicado em outras espécies de equinodermos e quais os limites dessa resiliência. ‘O que vemos é apenas a ponta do iceberg. Precisamos de mais financiamento para pesquisa marinha, algo que tem sido cortado nos últimos anos’, concluiu Ana Paula Silva. O estudo completo está disponível no site do Instituto de Biologia Marinha.

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