Em artigo intitulado ‘Foot-ball mulato’, publicado em 14 de junho de 2026, o colunista Marcus Melo revisita uma das teses mais emblemáticas atribuídas ao sociólogo Gilberto Freyre: a de que a superioridade do futebol brasileiro decorre da miscigenação racial, ou, em suas palavras, do ‘mulatismo’. O texto, veiculado originalmente na Folha de S.Paulo, questiona se essa ideia é um mito popular ou uma constatação histórica, e aponta que, embora Freyre seja frequentemente citado como autor dessa teoria, ela provavelmente deveria ser tratada como lenda. O artigo resgata a grafia arcaica ‘foot-ball’ para denotar as origens inglesas do esporte e cita diretamente o sociólogo: ‘Uma das condições dos nossos triunfos este ano me parecia a coragem que afinal tivéramos completa de mandar à Europa um team fortemente afro-brasileiro. Brancos alguns, é certo; mas grande número de pretilhões bem brasileiros e mulatos ainda mais brasileiros’.
A tese de Freyre, que ganhou força ao longo do século XX, ajudou a construir a imagem do futebol brasileiro como uma expressão da identidade nacional mestiça, associando a criatividade e a ginga dos jogadores à herança africana e indígena. No entanto, Marcus Melo argumenta que essa narrativa pode ter sido simplificada ou mesmo distorcida ao longo do tempo, transformando-se em um mito que obscurece outras variáveis históricas e sociais. O colunista destaca que a ideia de um ‘foot-ball mulato’ não é unânime entre historiadores e críticos, e que a própria obra de Freyre, embora influente, deve ser lida com cautela, especialmente em um contexto de debates raciais contemporâneos.
Panorama político e cultural
O artigo de Marcus Melo insere-se em um momento de intensa discussão sobre racismo, identidade e representatividade no Brasil. Em 2026, o país ainda enfrenta desafios relacionados à desigualdade racial, e o futebol, como espelho da sociedade, é palco de controvérsias sobre a inclusão de jogadores negros e a valorização de suas contribuições. A tese de Gilberto Freyre, que em seu tempo foi vista como progressista ao celebrar a miscigenação, hoje é criticada por setores do movimento negro, que apontam que ela pode romantizar a mestiçagem sem enfrentar o racismo estrutural. O colunista, ao revisitar o texto original de 1938, oferece uma oportunidade para repensar como o esporte foi usado para construir narrativas nacionais, muitas vezes às custas de uma análise mais profunda das relações de poder.
Além disso, a publicação do artigo na coluna de Marcus Melo na Folha de S.Paulo, um dos principais veículos de imprensa do país, reforça a relevância do tema para o debate público. O texto não apenas homenageia o legado de Gilberto Freyre, mas também convida leitores e especialistas a questionarem os mitos que cercam o futebol brasileiro, especialmente em um ano de Copa do Mundo, quando a seleção nacional é novamente centro das atenções. A discussão sobre o ‘foot-ball mulato’ transcende o esporte e toca em questões fundamentais sobre a formação da sociedade brasileira, a valorização da diversidade e os limites da teoria da democracia racial.
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