Golpe da falsa central bancária: vídeos revelam como quadrilhas atuam em todo o país

Uma investigação conduzida pelo Fantástico, com base em vídeos feitos pelos próprios criminosos, expõe o funcionamento das falsas centrais bancárias, um golpe que já causou prejuízos superiores a R$ 617 mil em diferentes regiões do país. As imagens mostram golpistas se passando por gerentes de banco e induzindo vítimas a realizar transferências, enquanto acreditam estar seguindo um procedimento de segurança. O esquema, que opera em larga escala, tem como alvo pessoas de todas as idades e níveis de escolaridade, conforme relatos de delegados ouvidos pela reportagem.

Em uma das gravações, um golpista que se identifica como gerente bancário afirma: “A velha já tá indo sozinha. Se tivesse R$ 100 mil aqui, eu ia esfolar ela”. A declaração, feita durante um telefonema com uma vítima, ilustra a frieza com que os criminosos conduzem a fraude. O material obtido pelo Fantástico revela que, enquanto a vítima acredita estar em contato com um especialista em segurança, os golpistas a orientam passo a passo para que ela própria realize a transferência de valores.

Casos recentes e prejuízos

Na última sexta-feira (7), um homem foi preso em flagrante em uma agência bancária em Guarulhos (SP), após sacar R$ 17.400 de duas contas de um idoso de 82 anos. A fraude, no entanto, teve início em Belo Horizonte (MG), com uma ligação que convenceu a vítima a entregar todos os seus dados e a autorizar as operações. O caso evidencia a atuação interestadual das quadrilhas, que coordenam ações em diferentes estados.

Em Cascavel (PR), um advogado teve prejuízo de aproximadamente R$ 600 mil. Os golpistas esvaziaram sua conta, esgotaram o cheque especial e ainda realizaram um financiamento em seu nome. A vítima relatou ter recebido uma mensagem de um contato com a foto e o número de telefone da gerente de seu banco. Os criminosos apresentaram um suposto pagamento com os dados da vítima e perguntaram se ela reconhecia a operação. Em seguida, afirmaram que um especialista em segurança entraria em contato para cancelar as supostas operações suspeitas, mas o objetivo era induzi-la a seguir os passos que a levariam ao golpe.

O advogado, que não conseguiu ressarcir o prejuízo, lamentou: “Eles acharam uma forma muito mais fácil de fazer esse roubo. Nem explosão de caixa eletrônico acontece mais. Você sai de vítima para inadimplente e sem recurso, sem amparo”.

Estratégia em massa e cooperação entre quadrilhas

O delegado Everson Aparecido Contelli, responsável por investigações na área, explica que os criminosos utilizam “gatilhos de autoridade” ao se apresentarem como funcionários do banco. “Qualquer pessoa pode cair. Temos acompanhado aqui pessoas com mestrado, com doutorado”, afirmou. A estratégia é atacar em massa, disparando a mesma farsa para dezenas de pessoas ao mesmo tempo. “Evidentemente, o criminoso não espera sucesso em todos. Mas no mínimo que ele alcança, já acaba causando um prejuízo muito significativo”, completou.

O delegado Adair Marques Correia Junior acrescenta que as quadrilhas de diferentes estados têm trabalhado em conjunto. “Algumas replicam sites de bancos, outras quadrilhas trabalham com os contatos com as vítimas. Outra é responsável por obter esses vazamentos de dados dos bancos”, detalhou. Essa divisão de tarefas torna o esquema mais sofisticado e difícil de ser rastreado.

Operação e apreensões

Uma operação realizada em julho terminou com 22 prisões e a apreensão de celulares, computadores e documentos usados em uma casa que funcionava como uma falsa central bancária. Segundo a investigação, o local operava como um call center do crime, com funcionários treinados para aplicar os golpes. As autoridades alertam para a importância de verificar a autenticidade de qualquer contato bancário e de nunca realizar transferências por orientação de terceiros.

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