Apesar do discurso público do presidente Lula (PT) de que as tarifas não serão aplicadas, nos bastidores, integrantes da área técnica do governo brasileiro já trabalham com um cenário desfavorável nas negociações com os Estados Unidos, conforme apurou o blog da jornalista Andréia Sadi, do G1. A avaliação interna é de que é improvável uma vitória capaz de impedir a implementação das tarifas, e o governo passou a discutir qual será sua reação caso a medida seja confirmada, e como deverá agir no “dia seguinte”. O prazo para a decisão dos Estados Unidos termina nesta quarta-feira (15).
O Brasil tentou abrir caminho para um acordo por meio de negociações diplomáticas e conversas entre integrantes dos dois governos. No entanto, técnicos brasileiros consideram que o uso da Seção 301 pelos Estados Unidos torna a disputa mais difícil e dá maior sustentação jurídica a uma eventual decisão americana. Dentro do governo, a leitura é de que os argumentos técnicos apresentados pelo Brasil não encontraram espaço porque a decisão americana se encaminha, desde o início, para uma solução política. Temas apresentados pelos Estados Unidos, como o Pix e o etanol, foram blindados pelo governo brasileiro e não são considerados negociáveis.
Estratégia de reação e exploração política
Além de preparar uma resposta institucional, o governo pretende explorar politicamente o episódio durante a campanha eleitoral. A estratégia será associar o tarifaço à atuação da oposição, especialmente do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência. Em carta enviada ao governo americano, Flávio pediu que as tarifas fossem adiadas, sem defender que fossem descartadas. Na avaliação do governo Lula, o pedido buscava evitar que a medida produzisse efeitos antes da eleição. O senador também esteve nos Estados Unidos para participar de uma audiência pública e apresentar seus argumentos. As movimentações de Flávio e as declarações do deputado Eduardo Bolsonaro sobre o Pix deverão ser usadas pela campanha governista para sustentar o discurso de que setores da oposição contribuíram para a pressão americana contra o Brasil.
Sem esperar uma vitória no campo técnico, o governo avalia que poderá transformar o embate em ativo eleitoral e tentar obter ganho político com a reação ao tarifaço. O episódio insere-se em um contexto mais amplo de tensões comerciais e políticas entre Brasil e Estados Unidos, que já geraram acusações de “traição à pátria” por parte de Lula contra Flávio Bolsonaro, conforme noticiado pelo portal República do Povo em matéria anterior. A crise também se aprofunda com a recente decisão da Procuradoria-Geral da República (PGR) de pedir a condenação de Eduardo Bolsonaro por coação em trama golpista, ampliando a instabilidade institucional no país.
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