Governo Trump intensifica interferência nas eleições brasileiras, mas Planalto aposta em rejeição interna ao republicano

Auxiliares próximos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avaliam que o governo dos Estados Unidos iniciou um movimento explícito para interferir nas eleições brasileiras deste ano. No núcleo do Palácio do Planalto, a percepção é de que há um risco concreto do “tiro sair pela culatra”, nas palavras de um interlocutor de Lula, porque existe forte rejeição no Brasil ao presidente americano Donald Trump, que cada vez mais passa a ser associado ao senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Há o reconhecimento no Planalto de que essa interferência acontece principalmente por parte de um setor do governo americano mais ideológico, liderado pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que tem interlocução com a família Bolsonaro. Mesmo assim, a percepção é que nos últimos dias, pelo menos seis episódios reforçam essa disposição do governo americano de influenciar no pleito brasileiro: o encontro do senador Flávio Bolsonaro com Donald Trump na Casa Branca; a classificação das facções brasileiras PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas depois do pedido feito por Flávio Bolsonaro; a indicação do deputado republicano Daniel Perez como embaixador americano no Brasil; a proposta do Escritório de Comércio americano de aplicar uma tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras; a publicação nesta terça-feira (2) por Trump em sua rede social das fotos do encontro da semana passada com Flávio Bolsonaro com elogios ao senador brasileiro no mesmo dia do anúncio da proposta de tarifaço; e a declaração do secretário de Estado americano, Marco Rubio, de que o Brasil não é aliado dos Estados Unidos. Rubio citou uma onda de “coalizão de países amigos” no continente americano, mas colocou o Brasil na lista de exceções de aliados.

Para um influente interlocutor do Palácio do Planalto, a fala de Rubio foi intencional, pois colocou publicamente o Brasil ao lado de Cuba, Nicarágua e Venezuela. O secretário de Estado americano ainda ressaltou que o Brasil está “no meio de um ciclo eleitoral”. “Os gestos do governo americano já são concretos demais. Mas a fala do Rubio é explícita ao colocar o Brasil numa lista de exceções de aliados e citar diretamente as eleições por aqui. Não há qualquer sutileza”, argumenta esse interlocutor palaciano.

O cenário de tensão diplomática ocorre em meio a um contexto de polarização política no Brasil, onde a figura de Trump é amplamente rejeitada por grande parte do eleitorado, especialmente entre os que apoiam Lula. A associação de Flávio Bolsonaro a Trump pode, segundo analistas, fortalecer a narrativa de que o bolsonarismo está alinhado a uma agenda externa impopular, enquanto o governo brasileiro busca manter relações comerciais e diplomáticas estáveis com os EUA, apesar das provocações. A reação do Planalto, até o momento, tem sido cautelosa, mas a avaliação interna é de que a estratégia americana pode acabar beneficiando o campo governista nas urnas.

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