Haddad deixa Fazenda com PIB acima do esperado, mas dívida em alta

Fernando Haddad deixa Ministério da Fazenda após 3 anos. Gestão teve PIB crescente, inflação controlada, mas dívida bruta subiu de 71,66% para 78,66% do PIB.

Gestão de 3 anos registrou crescimento econômico e inflação controlada, mas enfrentou dificuldades para cortar gastos públicos

Fernando Haddad (PT) deixa o Ministério da Fazenda nesta sexta-feira (20) após pouco mais de três anos à frente da pasta, deixando um legado marcado por resultados econômicos melhores que o esperado, mas com a dívida pública em trajetória crescente.

Durante sua gestão, a economia apresentou crescimento do PIB acima das projeções, inflação controlada e mercado de trabalho aquecido. Contudo, a relação entre o ministro e o mercado financeiro ficou marcada por altos e baixos, principalmente pela dificuldade em controlar os gastos públicos, com revisões constantes nas metas.

O principal desafio: gastos públicos descontrolados

Embora Haddad conquistasse credibilidade inicial do mercado financeiro com discurso focado em melhorar as contas públicas, seus planos enfrentaram resistências dentro do próprio governo. Nos primeiros dias de 2023, o ministro afirmou que “não aceitaria” o déficit previsto para aquele ano, mas o resultado fiscal fechou com déficit de R$ 249 bilhões.

Segundo Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos e ex-secretário da Fazenda de São Paulo, Haddad herdou despesas do governo Bolsonaro (PL) que precisaram ser pagas em 2023, mas também tem responsabilidade pelo aumento dos gastos. “Ele manteve regras que aumentam despesas automaticamente e não discutiu mudanças em benefícios como aposentadorias, abono salarial, seguro-desemprego e BPC”, afirma Salto.

Em 2024, o déficit caiu para R$ 47,6 bilhões, uma redução de mais de 80%. Mesmo assim, em abril daquele ano, o governo propôs reduzir as metas de superávit primário para os anos seguintes na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), abrindo espaço para aumento dos gastos. A medida foi duramente criticada pelo mercado financeiro.

Em novembro de 2024, Haddad tentou recuperar credibilidade ao anunciar um pacote de medidas que previa economizar R$ 70 bilhões em dois anos. No mesmo dia, porém, aumentou a faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, promessa de campanha de Lula vista como novo gasto.

A dívida em trajetória insustentável

Segundo dados do Banco Central, desde o início do mandato de Haddad, a dívida bruta subiu cerca de 7 pontos percentuais, para 78,66% do PIB. Para 2026, a previsão do Tesouro Nacional é que chegue a 83,6%.

Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria, afirma que “ainda que o ministro tenha adotado algumas medidas corretas para aumentar a arrecadação, elas não foram suficientes para mostrar estabilidade da dívida. O ponto mais sensível, que seria controlar o crescimento das despesas obrigatórias, não foi enfrentado”.

Haddad elevou a arrecadação federal com mudanças em impostos, como o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e a “taxa das blusinhas”, que passou a cobrar imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50.

Reforma tributária: o grande mérito

Os especialistas reconhecem como principal mérito de Haddad a defesa e aprovação da reforma tributária em dezembro de 2023, após três décadas de discussões no Congresso. A reforma criou um imposto sobre valor agregado (IVA), definiu cesta básica isenta de tributos e estabeleceu o Imposto Seletivo, conhecido como “imposto do pecado”.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a reforma deve gerar efeitos positivos para a economia ao longo do tempo. Contudo, Nelson Marconi, economista e coordenador do curso de administração pública da Fundação Getulio Vargas (FGV), destaca que ainda há longo caminho, incluindo a reforma sobre a renda.

PIB crescente, apesar dos juros altos

Contrariando as dificuldades fiscais, o PIB cresceu acima das projeções em todos os anos da gestão Haddad. Em 2025, o crescimento foi de 2,3%, marcando o quinto ano seguido de expansão, apesar da desaceleração. Segundo dados do IBGE, essa desaceleração é reflexo dos juros em 15% ao ano desde junho de 2025.

A inflação também ficou dentro do intervalo de tolerância da meta em dois dos três anos em que Haddad esteve à frente da Fazenda. Salto avalia que o BC fez bem em não ceder às pressões do governo federal, mantendo a taxa Selic elevada. “O fato de Haddad ter respeitado a autonomia do Banco Central e permitido que a instituição atuasse sem interferência também é um ponto positivo”, completa.

Mercado de trabalho no melhor nível

A taxa média de desemprego ficou em 5,6% em 2025, o menor nível da série histórica do IBGE iniciada em 2012. O rendimento médio real das pessoas ocupadas foi estimado em R$ 3.560, alta de 5,7% em relação a 2024.

Segundo a Câmara dos Deputados e consultores ouvidos, o mercado de trabalho representa um indicador ligado ao crescimento da economia que ficou melhor que o mercado previa, contribuindo positivamente ao legado econômico da gestão.

Apesar dos méritos na economia real, especialistas convergem que Haddad não avançou suficientemente em reformas estruturais para melhorar a economia no longo prazo, deixando um cenário de dívida crescente que demandará ação do próximo ministro da Fazenda.

Fonte: G1 Política

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