A inteligência artificial (IA) desponta como uma das principais ferramentas das campanhas eleitorais de 2026, prometendo revolucionar a forma como partidos e candidatos se comunicam com o eleitorado. Capaz de processar grandes volumes de dados, gerar materiais de propaganda em segundos e ampliar o alcance das mensagens nas redes sociais, a tecnologia, no entanto, acende um alerta em especialistas e autoridades diante do risco de produção de conteúdos falsos que possam enganar a população. Para mitigar os perigos, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já estabeleceu regras específicas para o uso da IA durante o pleito, enquanto a sociedade busca formas de identificar o que é real e o que é fabricado por algoritmos.
O uso da IA nas eleições não é novidade, mas em 2026 atinge escala inédita. Dados deixados por usuários na internet — comentários em redes sociais, reclamações sobre serviços públicos, interações com candidatos — tornaram-se matéria-prima valiosa para campanhas que buscam entender as demandas e preocupações do eleitorado. Com a tecnologia, essa análise ganha velocidade e profundidade, permitindo que propostas sejam moldadas de forma mais alinhada às expectativas populares. O pesquisador de inteligência artificial e professor da PUC-SP, Diogo Cortiz, destaca que a IA permite “uma busca muito grande de conteúdos, de informações, de dados e de indicadores”, o que traz benefícios tanto para políticos quanto para formuladores de políticas públicas. Ele avalia que a ferramenta será decisiva na disputa: “Em 2018, tivemos o uso intenso das redes sociais e dos disparos em massa. Depois vieram os vídeos curtos. Sem dúvida, a inteligência artificial será uma das grandes definidoras da eleição de 2026”, afirma.
Produção em escala e o desafio da verificação
Além da análise de dados, a IA reduz drasticamente os custos de produção de materiais de campanha. O professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Flávio Ferrari, especializado em reputação digital, demonstrou que plataformas gratuitas conseguem criar peças publicitárias em poucos segundos. “Apertei o botão. Trinta segundos depois, está aqui o banner. E você pode fazer isso numa inteligência artificial gratuita”, exemplifica. A acessibilidade da ferramenta, porém, é uma faca de dois gumes: se por um lado democratiza a comunicação política, por outro facilita a produção de deepfakes e conteúdos enganosos em larga escala, capazes de manipular a opinião pública.
O TSE, ciente do problema, aprovou resoluções que obrigam a rotulagem de conteúdos gerados por IA e proíbem a disseminação de informações falsas, mas a fiscalização ainda é um desafio prático. Especialistas ouvidos pela reportagem recomendam que eleitores fiquem atentos a sinais como distorções em imagens, áudios com entonação artificial e vídeos com sincronização labial imperfeita. A checagem em fontes oficiais e o uso de ferramentas de detecção também são aliados importantes.
Panorama político e o impacto na democracia
O cenário eleitoral de 2026 já é marcado por disputas acirradas em todos os níveis, e a IA entra como um fator que pode amplificar tanto o debate democrático quanto a polarização. Enquanto candidatos a cargos majoritários e proporcionais buscam se destacar em um ambiente digital saturado, a tecnologia promete personalizar mensagens para segmentos específicos do eleitorado, tornando a comunicação mais eficiente, mas também mais fragmentada. A preocupação central é que a desinformação, já presente em pleitos anteriores, ganhe contornos mais sofisticados, com conteúdos falsos difíceis de distinguir da realidade.
Para especialistas, o uso responsável da IA depende de um esforço conjunto entre plataformas digitais, órgãos reguladores, partidos e a sociedade civil. A transparência na origem dos conteúdos, a educação digital da população e a agilidade na remoção de material enganoso são medidas essenciais para garantir que a tecnologia sirva ao fortalecimento da democracia, e não à sua erosão. O desafio, como apontam os pesquisadores, é encontrar o equilíbrio entre inovação e proteção dos direitos fundamentais, em um momento em que a confiança nas instituições é testada diariamente.
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