Jovem morre após complicações pós-parto e família denuncia negligência em atendimento

Uma jovem de 21 anos, identificada como Maria Eduarda da Silva Santos, morreu na última quarta-feira (12) após complicações decorrentes de um parto realizado no Hospital Regional de Arapiraca, em Alagoas. A família da vítima denuncia negligência no atendimento prestado pela unidade de saúde, que teria falhado em diagnosticar e tratar uma hemorragia interna. O caso, que já é investigado pela Polícia Civil, expõe mais um episódio de fragilidade na assistência materna no Brasil, onde a mortalidade materna segue como um dos indicadores mais críticos da saúde pública.

Segundo relato de parentes, Maria Eduarda deu à luz no último domingo (9) e recebeu alta na segunda-feira (10), mesmo apresentando dores abdominais intensas e sangramento anormal. A família alega que, ao retornar ao hospital na terça-feira (11) com os sintomas agravados, a jovem foi submetida a exames superficiais e liberada novamente, sem que houvesse uma avaliação mais aprofundada. Na madrugada de quarta-feira (12), ela foi encontrada desacordada em casa e, ao ser levada às pressas para a unidade, não resistiu. O laudo preliminar do Instituto Médico Legal aponta choque hemorrágico como causa da morte, o que reforça a suspeita de que a hemorragia poderia ter sido contida com intervenção médica adequada.

Panorama político e social

O caso de Maria Eduarda não é isolado. Dados do Ministério da Saúde indicam que, em 2023, o Brasil registrou 1.574 mortes maternas, uma taxa de 57,3 óbitos por 100 mil nascidos vivos, muito acima da meta de 30 estabelecida pela Organização Mundial da Saúde. Em Alagoas, a situação é ainda mais grave: o estado ocupa o terceiro lugar no ranking nacional de mortalidade materna, com 89,1 mortes por 100 mil nascidos vivos, segundo o Observatório de Saúde da Mulher. A denúncia da família de Maria Eduarda reacende o debate sobre a precariedade da rede pública de saúde, especialmente no interior do Nordeste, onde a falta de leitos de UTI, a escassez de profissionais especializados e a demora no atendimento são problemas crônicos.

A Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas (Sesau) informou, em nota, que abriu uma sindicância interna para apurar as circunstâncias do atendimento e que está colaborando com a investigação policial. O Hospital Regional de Arapiraca, por sua vez, afirmou que segue os protocolos do Sistema Único de Saúde (SUS) e que aguarda o resultado dos exames para se posicionar. No entanto, a família, representada pelo advogado Carlos Alberto de Oliveira, já protocolou uma representação no Ministério Público Estadual, pedindo a responsabilização criminal e administrativa dos envolvidos. “Não queremos apenas justiça por Maria Eduarda, mas que nenhuma outra mãe passe por isso”, declarou a mãe da vítima, Lúcia Helena dos Santos, em entrevista à imprensa local.

O episódio também ecoa em Brasília, onde parlamentares da Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados cobram a implementação efetiva da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher, que prevê, entre outras medidas, a ampliação do pré-natal de qualidade e a criação de redes de urgência obstétrica. A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) classificou o caso como “mais uma tragédia anunciada” e defendeu a aprovação do PL 1.234/2023, que obriga hospitais públicos a manterem equipes multidisciplinares para atendimento de emergências obstétricas. Já o senador Eduardo Girão (Novo-CE) pediu a convocação do ministro da Saúde, Nísia Trindade, para prestar esclarecimentos sobre a situação da mortalidade materna no país.

Enquanto a investigação avança, a comunidade de Arapiraca se mobiliza em protestos pacíficos, e a família de Maria Eduarda aguarda respostas. O caso, que já ganhou repercussão nacional, expõe não apenas uma falha pontual, mas um sistema de saúde que, em muitas regiões, continua a falhar com as mulheres no momento mais vulnerável de suas vidas.

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