Lançamento de plano de segurança pública de Flávio Bolsonaro fortalece aliança com Sergio Moro e reacende debate sobre pauta penal no Brasil

O evento de lançamento do programa de governo sobre segurança pública do pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL), realizado nesta quinta-feira (18), em São Paulo, reforça o prestígio do senador Sergio Moro (PL-PR) junto ao bolsonarismo e sinaliza uma nova fase de alinhamento entre as principais lideranças da direita brasileira em torno de uma agenda comum de combate à criminalidade. A iniciativa ocorre em um momento de intensa articulação política para a sucessão presidencial de 2026, quando a pauta da segurança pública emerge como um dos principais eixos de disputa eleitoral, especialmente após o aumento da percepção de violência em grandes centros urbanos e a escalada de facções criminosas no Norte e Nordeste do país.

O plano apresentado por Flávio Bolsonaro, que ainda não teve seu conteúdo integral divulgado, foi elaborado com a participação de assessores ligados a Moro e a outros especialistas em segurança, como o ex-secretário nacional de Segurança Pública, General Santos Cruz. A proposta prevê, entre outros pontos, o endurecimento de penas para crimes hediondos, a criação de um sistema nacional de inteligência integrado entre as forças policiais estaduais e federais, e a ampliação do uso de tecnologias de reconhecimento facial e monitoramento eletrônico. A medida é vista como uma tentativa de unificar o discurso da direita em torno de uma plataforma que já rendeu dividendos eleitorais a Jair Bolsonaro em 2018 e 2022, mas que agora precisa ser atualizada diante das críticas de ineficiência do sistema prisional e dos altos índices de reincidência criminal.

A aproximação entre Flávio Bolsonaro e Sergio Moro não é nova, mas ganhou contornos mais nítidos nos últimos meses. Desde que Moro deixou o cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública em 2020, após atritos com o então presidente Jair Bolsonaro, as relações entre as duas famílias políticas passaram por um período de distanciamento. No entanto, com a pré-candidatura de Flávio à Presidência e a necessidade de ampliar a base de apoio no Congresso, o senador paranaense tornou-se um aliado estratégico, especialmente por sua capilaridade no Sul do país e sua imagem de “combate à corrupção” que ainda ressoa entre eleitores de centro-direita. O evento desta quinta-feira contou com a presença de deputados federais do PL, como Carla Zambelli (SP) e Eduardo Bolsonaro (SP), além de representantes de partidos aliados, como o PP e o Republicanos, o que demonstra a tentativa de construir uma frente ampla em torno da pauta penal.

Do ponto de vista político, o lançamento do plano de segurança ocorre em um contexto de fragmentação da oposição ao governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Enquanto o PT tenta se reposicionar como partido da ordem, com a aprovação de medidas como o pacote anticrime de 2019 e a criação do Ministério da Segurança Pública em 2023, a direita busca capitalizar o desgaste do governo com a crise no sistema penitenciário e a atuação de facções como o PCC e o Comando Vermelho. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que, em 2025, o Brasil registrou uma média de 45 mil homicídios por ano, número que, embora inferior ao pico de 2017, ainda é considerado alarmante por especialistas. Além disso, a sensação de insegurança nas periferias e áreas metropolitanas cresceu 12% nos últimos dois anos, segundo pesquisa do Datafolha, o que torna a segurança pública um tema central para as eleições de 2026.

O evento também serviu para testar a capacidade de mobilização de Flávio Bolsonaro, que, diferentemente do pai, não possui o mesmo carisma popular, mas tenta se consolidar como herdeiro político do bolsonarismo. A presença de Moro ao seu lado, em um palco montado no auditório do Hotel Unique, na zona sul de São Paulo, foi interpretada por analistas como um movimento para atrair o eleitorado moderado que ainda vê com ressalvas o radicalismo de parte da base bolsonarista. “A aliança entre Flávio e Moro é uma tentativa de dar uma roupagem mais técnica e menos ideológica à pauta da segurança, que historicamente é um dos pontos fortes da direita”, avaliou o cientista político Antonio Lavareda, em entrevista à Rádio CBN. “Mas o sucesso dessa estratégia dependerá da capacidade de ambos apresentarem propostas viáveis e de não repetirem os erros do passado, como a politização excessiva do combate ao crime.”

O plano de segurança de Flávio Bolsonaro também deve enfrentar resistências dentro do próprio campo conservador. Setores mais radicais do bolsonarismo, representados por figuras como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), defendem uma abordagem mais punitivista, com a redução da maioridade penal e a ampliação do uso de armas pela população civil, pontos que não foram incluídos no programa apresentado nesta quinta-feira. Já aliados de Moro, como o senador Oriovisto Guimarães (Podemos-PR), pregam um equilíbrio entre repressão e prevenção, com investimentos em educação e reinserção social de egressos do sistema prisional. Essa divergência interna pode dificultar a aprovação de medidas no Congresso, onde o governo Lula ainda mantém uma base ampla, mas que vem perdendo coesão nos últimos meses devido a escândalos de corrupção no Ministério da Saúde e à crise no setor de infraestrutura.

Em termos de impacto imediato, o lançamento do plano de segurança pública de Flávio Bolsonaro já gerou reações no Palácio do Planalto. O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, afirmou, em nota, que o governo federal está aberto ao diálogo com todas as forças políticas para aprimorar as políticas de segurança, mas criticou indiretamente a proposta ao dizer que “não se combate o crime com discursos de ódio ou com a flexibilização do controle de armas”. A declaração de Lewandowski reflete a preocupação do governo Lula em não perder o protagonismo na pauta, especialmente após a aprovação, em 2025, do novo Código de Processo Penal, que endureceu regras para a prisão preventiva e a delação premiada. O embate promete se intensificar nos próximos meses, à medida que as campanhas eleitorais se aproximam e a segurança pública se consolida como um dos principais temas de debate no Brasil.

Fonte: ver noticia original

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *