Em um discurso contundente proferido neste sábado (18) de abril, durante a 1ª Reunião Mobilização Progressista Global em Barcelona, na Espanha, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu a coragem de expressar posições progressistas e de esquerda dentro das regras democráticas, ao mesmo tempo em que elogiou a postura do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez por barrar o uso de bases militares no país para um ataque dos Estados Unidos ao Irã, um ato que desafiou pressões do governo de Donald Trump e ressaltou a autonomia soberana em um cenário geopolítico complexo.
Dirigindo-se a uma plateia atenta, Lula sublinhou a necessidade de que indivíduos e governos não temam defender suas convicções ideológicas, desde que o façam dentro dos preceitos democráticos. “Ninguém precisa ter vergonha de ser progressista ou de ser de esquerda. Ninguém precisa ter medo, no mundo democrático, de ser o que é e falar o que precisa falar, desde que se respeitem regras do jogo democrático estabelecidos pela própria sociedade”, afirmou o presidente, conforme reportado pelo g1. A declaração ganhou um peso adicional ao ser seguida por um elogio direto a Pedro Sánchez, que, segundo Lula, demonstrou notável coragem ao impedir que aeronaves de guerra dos Estados Unidos utilizassem o território espanhol como plataforma para uma investida militar contra o Irã. Esta decisão, tomada no mês anterior, ocorreu sob intensa pressão do então governo do presidente norte-americano Donald Trump, que chegou a ameaçar cortar relações comerciais com a Espanha caso não houvesse colaboração. O governo espanhol, contudo, manteve sua recusa em autorizar o uso de suas bases militares para tal finalidade, reafirmando sua soberania em um cenário de tensões geopolíticas.
Panorama Político e Autocrítica Progressista
Em um discurso que reverberou por todo o evento, Lula não poupou críticas ao extremismo crescente globalmente, mas também direcionou um olhar crítico para a própria ala progressista. Ele argumentou que, em muitos aspectos, o movimento progressista “se transformou no sistema”, falhando em superar o pensamento econômico dominante. O presidente brasileiro destacou que, embora os progressistas tenham alcançado avanços significativos, eles frequentemente sucumbiram à ortodoxia neoliberal. “O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda assim nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo”, pontuou, evidenciando uma autocrítica profunda sobre a gestão de políticas públicas em governos de esquerda.
Lula aprofundou sua análise, observando que governos de esquerda, por vezes, têm sido eleitos com discursos de ódio e, uma vez no poder, adotam políticas de austeridade – cortes de gastos públicos e contenção de despesas – em detrimento de políticas públicas essenciais, tudo em nome da governabilidade. “Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Não me surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema”, declarou, traçando um paralelo com a ascensão da extrema-direita. Segundo o presidente, a extrema-direita soube capitalizar o mal-estar gerado pelas promessas não cumpridas do neoliberalismo, “canalizou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras”. Ele enfatizou que os progressistas devem ter como objetivo a coerência, evitando “falar uma coisa e implementar outra” ou “trair a população”, e que é imperativo apontar o dedo para os verdadeiros culpados, criticando abertamente bilionários e o conceito de meritocracia como fatores que perpetuam a desigualdade social.
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